sábado, 2 de outubro de 2010

Palestra do Geógrafo Aziz Ab' Saber na Unicastelo

Quarta-Feira, 06/10/2010, o geógrafo Aziz Ab' Saber estará na Unicastelo apartir das 19hs palestrando o seguinte tema:

Os Efeitos da Construção de um Estádio ( Abertura da Copa) em Itaquera.

- Professor-Emérito da USP, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
- Professor Honorário do Instituto do Instituto de Estudos Avançados da USP.
- Doutor Honoris Causa, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP e Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ.
- Membro da Academia Brasileira de Ciências.
- Membro Honorário da Sociedade de Arqueoligia Brasileira.
- Prêmio Almirante Alvaro Alberto para a Ciência e Tecnologia de 1999.
- Grão-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico em Ciências da Terra.
- Prêmio Internacional de Ecologia 1998.
- Prêmio UNESCO para a Ciência e Meio Ambiente 2001.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ode aos herdeiros políticos...


ODE AOS HERDEIROS POLÍTICOS. GANHAM AOS CATORZE ANOS A PRIMEIRA GRAVATA, COM AS CORES DO PARTIDO QUE MELHOR OS ILUDE. AOS QUINZE, SEGUEM A CARAVANA. APLAUDEM CONFORME O CENHO DAS CHEFIAS. SÃO OS CHAMADOS ANOS DE FORMAÇÃO. AÍ APRENDEM A COMPOR O GESTO, A INTERPRETAR HUMORES, A MENTIR HONESTAMENTE. APRENDEM A LEVEZA DAS PALAVRAS, A ESCOLHER O VINHO, A ESPUMAR DE SORRISO NOS DENTES. APRENDEM O SIM E O NÃO MAIS OPORTUNOS. AOS VINTE ANOS, JÁ CONHECEM PELO CHEIRO O CARISMA DE UNS, A MENOS-VALIA DE OUTROS, ENQUANTO PROSSEGUEM VAGOS ESTUDOS DE DIREITO OU ECONOMIA. ESTÃO DE OLHO NOS PRIMEIROS CARGOS; É PRECISO MINAR, DESMINAR, INTRIGAR, REUNIR. SÓ OS PIORES CONSEGUEM ULTRAPASSAR ESSA FASE. HÁ ENTÃO OS QUE VÃO PARA OS MUNICÍPIOS, OS QUE PREFEREM OS ORGANISMOS PÚBLICOS. TUDO DEPENDE DE UM GOLPE DE VISTA OU DOS PATROCÍNIOS À DISPOSIÇÃO. É BEM O MOMENTO DE INTEGRAR AS LISTAS DE ELEGÍVEIS, PONDO SEMPRE A BAIXEZA ACIMA DE TUDO. A PARTIR DO PARLAMENTO, TUDO PODE ACONTECER: DIRETOR DE EMPRESA PÚBLICA, COORDENADOR DE CAMPANHA, ASSESSOR DE MINISTRO, MINISTRO, DIRETOR EXECUTIVO, PRESIDENTE DA CAIXA, EMBAIXADOR NA PQP!... MAIS À FRENTE, PARA COROAR A CARREIRA, O GOLDEN-SHARE DE UMA CADEIRA AO PÔR-DO-SOL. NO FINAL, PARA OS MAIS OBSTINADOS, PODE HAVER NOME DE RUA (COM OU SEM ESTÁTUAS), FLORES DE PANEGÍRICO, FANFARRAS E... FORMOL!

Sobre o autor:
O poeta português José Miguel Silva nasceu em maio de 1969, em Vila Nova de Gaia, no distrito do Porto. Publicou os seguintes livros de poesia: O Sino de Areia (Gilgamesh, 1999), Ulisses Já Não Mora aqui (&etc, 2002), Vista Para um Pátio Seguido de Desordem (Relógio D’Água, 2003), 24 de Março (2004) e Movimentos no Escuro (Relógio D’Água, 2005).

A formação do povo político.


Falar em democracia política é falar do governo do povo. Segue-se que a condição da existência da democracia é a presença de um povo político. Povo político, por sua vez, é aquele que dispõe de todas as condições, materiais e intelectuais, para participar conscientemente e eficazmente da vida pública de maneira direta ou indireta. É aquele que pode votar, aderir a partidos, manifestar-se nas ruas e na mídia, apoiar, protestar, rebelar-se. Povo político é a cidadania ativa.


A ideia de um povo totalmente cidadão é uma utopia. Nas repúblicas ateniense e romana, os cidadãos ativos eram apenas uma parcela do povo. Nas repúblicas de hoje, mesmo nas mais realizadas, há desigualdade nas condições de participação política. Esse fato não nos precisa perturbar. Basta-nos a convicção de que quanto maior o grau de autogoverno de um povo, mais democrático será seu governo, mais sólidas suas instituições e mais justa a distribuição da riqueza social.

A formação de um povo político exige processo longo que varia de país a país. Em alguns casos, com na Grã-Bretanha, ela se deu a partir de uma revolução econômica que implantou o mercado capitalista. Em outros, como na França, sua origem foi uma revolução política que se apoderou do Estado. Em outros ainda, como na União Soviética, o ponto de partida foi uma revolução social. Essas revoluções mobilizaram a sociedade inteira e criaram as condições para a emergência, mais cedo ou mais tarde, de um povo político. Em nosso caso, a dificuldade tem sido maior porque não passamos por revolução alguma. Nosso percurso histórico contornou a violência das revoluções, mas, por isso mesmo, e graças à persistência das desigualdades, foi muito lento na criação de um povo político.

Podemos distinguir quatro povos: o povo dos censos, que equivale ao conjunto da população de um país; o povo político, que é aquele que atua dentro do sistema representativo, sobretudo votando; o povo da rua, aquele que age e reage, mas fora do sistema formal de representação, e o povo silencioso, alheio à política. Um país será tanto mais democrático quanto maior for a coincidência entre o povo dos censos e o povo político e quanto mais reduzidos forem os povos da rua e do silêncio. Concentro a análise no povo político-eleitoral.

No que se refere a eleições, o Brasil foi de 1822 a 1881, na lei e de fato, mais democrático do que os países europeus. Cerca de 1860, por exemplo, votavam no Brasil no primeiro turno 13% da população livre. Na Grã-Bretanha votavam 3%, na Suécia, 5%, na Espanha, 2,6%. No entanto, a lei de 1881, que introduziu a eleição direta, causou grande retrocesso ao proibir o voto do analfabeto e ao dificultar a prova de rendimentos. Na época, 85% da população eram analfabetos. Na eleição parlamentar de 1886, votou apenas 0,8% da população. Foi nessa época que o biólogo francês Louis Couty escreveu que o Brasil não tinha povo, querendo dizer com a afirmação que o país não tinha povo político. A Constituição de 1891 eliminou a exigência de renda, mas manteve a de alfabetização. A consequência foi que durante toda a Primeira República (1889-1930), a participação eleitoral não passou de 5% da população. Nas eleições do centenário da independência, em 1822, apenas 2,9% votaram.

A participação de 1860 só foi recuperada em 1945, quando votaram 13,4% da população. Foram 64 anos de incrível estagnação, quando em outros países a participação eleitoral aumentava constantemente. Em compensação, após 1945, houve no Brasil uma expansão muito rápida do povo eleitoral. Em 1960, o eleitorado correspondia a 22% da população, em 1986, a 51%, em 2009, a 71%. A Constituição de 1988 foi em parte responsável por esse crescimento ao eliminar a exclusão dos analfabetos e baixar a idade para 16 anos. Foi um salto espetacular. Em 50 anos, mais de 120 milhões de brasileiros foram acrescentados ao colégio eleitoral. O aumento não se deteve mesmo durante a ditadura. Entre 1962 e 1986, o eleitorado cresceu em 53 milhões.

O Brasil passou rapidamente a ter povo político-eleitoral. A rapidez da inclusão deu margem aos populismos varguista, ademarista e lacerdista. Os políticos descobriram a nova mina de votos e trataram de explorá-la com as táticas conhecidas. Em 1964, essa súbita avalanche de votos implodiu o sistema representativo, não acostumado à presença de povo. Os milhões que começaram a votar durante a ditadura fizeram um aprendizado torto do sentido do voto. Votar era um ritual ocioso diante da emasculação do Congresso.

Temos hoje um povo político amadurecido, uma democracia sólida? Para voltar às definições, o povo político-eleitoral está hoje mais próximo do povo do censo do que em qualquer outro país, graças ao voto aos 16 anos. O povo da rua, por sua vez, reduziu-se substancialmente. Até o MST faz hoje política dentro do sistema. Quando não o faz, é por conivência das autoridades. Os traficantes que controlam partes do território urbano não são atores políticos. O povo silencioso ainda existe, mas tem peso cada vez mais reduzido. Uma novidade positiva é que, apesar de ser a participação política ainda excessivamente limitada às eleições, ela encontra hoje na internet vasto campo de atuação que está longe de ter esgotado suas potencialidades.

Assim, em termos eleitorais, pode-se dizer que temos hoje um povo político. No entanto, além de ser reduzida a participação fora das eleições, ainda não temos um povo político maduro se levarmos em conta o que Cícero já exigia para a existência de uma autêntica república: a igualdade social ou, pelo menos, legal. Com as imensas desigualdades que ainda temos, sobretudo de renda e educação, os votantes não têm a mesma liberdade de escolha. Apesar dos avanços na redução da desigualdade, o Brasil ainda possui 54 milhões de pobres, muitos deles eleitores. Além disso, 53% do eleitorado não completaram o ensino fundamental. No governo de Lula, esse eleitorado compreendeu a relação de causalidade entre voto e políticas sociais. Contudo, ele vive no mundo da necessidade, onde sua liberdade de escolha se restringe ao cálculo dos benefícios que recebe. É o caso dos 58 milhões de brasileiros que se beneficiam dos aumentos do salário mínimo e da Bolsa Família. Essas pessoas representam a opinião popular, legítima, mas prisioneira da necessidade. Não estão livres para formarem uma opinião pública independente e crítica.

Eis o dilema de hoje: a inclusão social é necessária para reduzir a desigualdade que, por sua vez, é condição para a existência da democracia. Mas, ao reduzir a desigualdade, cria, no curto prazo, um grande eleitorado dependente, terreno fértil para populismos, clientelismos e cesarismos. É o preço do tempo perdido na formação do povo político.


José Murilo de Carvalho - O Estado de S.Paulo

O Etnocentrismo do Bárbaro.



Há mais de cem anos o antropólogo Franz Boas contribuiu para firmar as bases da Antropologia como ciência. Com ele a diversidade cultural passou por novas definições, o que antes era visto como inferior por ser diferente (gênero, cor, raça, crenças, línguas...) passou a serem entendidos por ele como peculiaridades que caracterizam lugares, povos... E que a concepção de superioridade e incômodo com as diferenças são verdades construídas pelos olhos de quem analisa os fatos a partir do seu próprio universo. O Etnocentrismo.
Seu pensamento teve elaboração na mesma época em que o mundo utilizava de políticas eugênicas (higienização social), processos de branqueamento por governos e intelectuais que ainda se apropriavam de pensamentos do século XIX.
No Brasil, um de seus principais seguidores foi o Antropólogo Gilberto Freyre. A obra Casa-Grande e Senzala (1933) deixa bem clara suas influências. Ao expor a vida privada no Brasil colonial, evidencia a importância não apenas do branco europeu, mas dos indígenas e dos negros africanos na formação da cultura e sociedade brasileira.
Todos estes passos evidentemente foram importantes para a construção de análises da compreensão das sociedades e nas constituições que defenderam de forma mais ampla o conceito de igualdade, “pelo menos discursivamente falando”.
Isso não significa que o hábito de inferiorizar, ocasionado pelo preconceito, racismo, o menosprezo pelo que não se enquadravam por padrões pré-defindos a muitas gerações e que de certa forma também já se definiam como culturas consolidadas deixou de ser praticado do dia para noite ou que em pleno século XXI esta prática tenha sido extinta. No caso da mulher, estatisticamente, continua sendo pior remunerada em relação ao homem, o preconceito aos homossexuais, aos negros que continuam sofrendo com o racismo, e o preconceito religioso, tendo em vista que hoje não queimamos os que não são católicos nem os chamamos de hereges mas os julgamos como fanáticos por seus trajes, hábitos ou estereotipamos estigmatizando-os como terroristas fundamentalistas. As novas tribos urbanas que são descriminadas por outras ou pelo padrão social que insistimos nomeclaturar como normal.
Esses padrões de “normalidade” que muitas vezes são impostos na sociedade pelo mercado ou por uma cultura conservadora que não admite transformações em outros tempos chamariam os diferentes de “Bárbaros”.
O Império Romano nos permite ter uma visão nítida sobre este assunto. Ao expandir seu poder político, territorial, militar e econômico por quase toda a Europa foi necessário a cima de tudo pra tornar todas as outras expansões possíveis, levar aos povos dominados o seu modelo de vida, ou seja, expandir sua cultura, sua fé (religião), seu idioma.
Num projeto de romanização por todo o continente foi imposta a ordem por seus modos de dominação. Os que viviam fora dessa condição de dominação eram considerados Bárbaros.
Quando os povos germânicos(bárbaros) começaram a ser expostos ao domínio cultural romano gerou-se um choque poderoso. Apesar dos bárbaros sofrerem o processo de aculturação, as tendências políticas econômicas e sociais que levaram o Império Romano ao declínio foram reforçadas pelas invasões bárbaras, momento que acarretou no corrompimento da cultura romana. Este corrompimento permitiu a miscigenação sem a necessidade de prevalecer aspectos primordialmente romanos e o bárbaro levando entre outros aspectos a criação de diversos idiomas dos quais temos hoje ( português, francês, espanhol...).
Todos estes processos de aculturação e miscigenação fez com que o Antropólogo Darcy Ribeiro apontasse o Brasil como a “Nova Roma”, referindo-se a grande miscigenação racial e cultural que nos deu a peculiaridade que ele mesmo chamou de “ esses povo de milhões de pele morena”. Contudo, ao analisarmos a sociedade brasileira, reparamos que há outra condição etnocêntrica bem nítida. Se o romano identificava o “não-romano” como bárbaro, vendo-o como ser inferior, pagão ou como uma ameaça, por aqui se evidencia outro modelo de bárbaro, o pobre.
As relações que se dão neste quadro de antagonismo classista se apresentam como distanciamento e medo por parte dos grupos privilegiados. Dinâmicas que abriam espaços a políticas de higienização que em outros tempos já foram muito mais explícita que hoje cavaram ainda mais o poço da desigualdade. Com isso, os novos padrões impostos construíram um novo modelo de bárbaro. Mas, diferentemente do romano antigo que buscava a romanização do bárbaro. O “romano” de hoje quer negar a sua existência, através do distanciamento do pobre, reforça a sua marginalização. O “romano” não quer vê-los bebendo em taças de cristais e muito menos quer ele mesmo beber em copos datados. Evidentemente que o Império Romano não desenvolvia a política de igualdade social, o intuito da disseminação de sua cultura era para fins de dominação.
Mas a agravante desta dialética é que o Bárbaro, ele também quer beber em taças de cristal. A análise que o historiador Leandro Karnal faz para este debate vem a ser muito oportuna comparando os desejos do povo durante a revolução francesa aos do povo dos dias de hoje:
“... antes o povo queria derrubar a Bastilha e o palácio de Versalhes. Hoje o povo quer derrubar a Bastilha e viver no palácio de Versalhes”.
O que se faz evidente nesta relação de “querer morar em Versalhes” é que ao conseguir esta façanha logicamente que simbólica, através de conquistas obtidas na aquisição de bens de consumo, o trabalhador deixa de se reconhecer como o “Bárbaro” e passa a reproduzir o preconceito dos quais o impedem de se reconhecer sob suas origens. Ou seja, o “Bárbaro” contemporâneo esquece que também é ”Bárbaro” e ao negar aos seus, nega a si próprio.



Bibliografia:
Boas, Franz. Antropologia Cultural. Org. Celso Castro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2044. 109 p.
Freyre, Gilberto. Casa-Grande e Senzala: Formação da Família Brasileira sob Regime Patriarcal. 51ª Edição. São Paulo. Editora Global, 2006.
Ribeiro, Darcy. As Américas e a Civilização: Causas do Desenvolvimento Cultural Desigual dos Povos Americanos. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
Karnal, Leandro. A Utopia da Idade Perfeita. Palestra. Café Filosófico, 2009.

Marcelo A. O. J. Leite

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Pensando Comunidade no Brasil.



Se levarmos em consideração as condições geográficas do Brasil, com seu território alcança 8.514.215,3 Km³ e que neste vasto espaço temos um emaranhado populacional de aproximadamente 190 milhões de brasileiros vivendo em 5.507 municípios, em 27 unidades de Federação chegando a um total de 54.265.618 moradias, e uma diversidade cultural tão ampla quanto seu território. Uma mistura de raças jamais vista em qualquer parte do mundo. Sem contar com a situação socioeconômica de cada grupo social existente por aqui. Diversidade que fez o Antropólogo Darcy Ribeiro se referir a esta nação como a “Nova Roma”, nos dá um caráter pretensioso ao querer tratar de um conceito tão complexo diante de tantas diferenças dentro de nosso país, correndo o risco de analisá-lo de forma generalizante.
Levando em consideração todos os dados iniciais para tratar este assunto, busquei me apropriar da definição do Sociólogo Florestan Fernandes que se refere ao significado da palavra (comunidade) da seguinte forma:
“Comunidade se traduz em um conjunto de pessoas que se organizam sob o mesmo conjunto de normas, geralmente vivem no mesmo local, sob o mesmo governo ou compartilham do mesmo legado cultural e histórico. É um grupo territorial de indivíduos com relações recíprocas, que servem de meios comuns para lograr fins comuns.”
Mas se de um lado a grande diversidade nos separa, por outro propicia um fenômeno muito peculiar que de certa forma nos uni, a “regionalidade”. Este fator com certeza cria uma aura de identificação cultural. Essa identificação se faz notória quando vemos gaúchos cultivando hábito de tomar chimarrão e comer churrasco, do carioca com o samba, do carnaval na Bahia, do pão de queijo com o mineiro e de uma forma geral o futebol com o brasileiro...
Mas será que estes fatores regionais culturais são suficientes para impulsionar pessoas que moram na mesma cidade, mesmo bairro, na mesma rua a se organizarem e articularem em prol da mesma causa? Será que há a mesma causa? Mesmos interesses?
Ao mesmo tempo em que podemos afirmar que sim para essas interrogações, também podemos verificar durante a nossa história, a existência de capítulos que apontaram muitos denominadores comuns, mas, que os restos e as diferenças muitas vezes impediram a realização de formação de uma comunidade engajada e participante e quando esses obstáculos foram superados as mesmas foram marginalizadas, consideradas subversivas, uma ameaça ao status quo, sendo dizimadas em nome da “ordem e do progresso”.
A primeira grande dificuldade de formação de comunidades segundo o significado proposto neste texto, a partir da organização feita de baixo pra cima, por mais difícil que possa parecer foi no processo de escravidão negra no Brasil, a final de contas tinham muito em comum para se unirem e fazer valer sua voz (no caso, a busca da liberdade). A escravidão negra no Brasil tem seu início no século XVI por volta de 1570 ocasionando posteriormente o “fim” da escravidão indígena, por os fidalgos portugueses acreditarem que os africanos eram mais aptos para trabalharem na plantação e extração de cana-de-açúcar(produto gerador de maior riqueza da época). Com isso no século XVIII a população negra no Brasil já era uma maioria bem significativa. E a pergunta que se faz é: Por que não se rebelaram? Por que não se organizaram e lutaram contra o fim da escravidão?
A resposta pode vir de diversas formas. Se partirmos de algumas colocações étnicas, geográficas e sociais, perceberemos que os africanos vinham de suas terras muitas vezes separados de seus povos, misturado com outros rivais ou de domínio de idiomas ou dialetos diferentes (leve-se em consideração que a África é um continente que fala mais de 56 mil línguas e dialetos diferentes), que estavam longe de casa, atravessaram um oceano e não tinham a menor idéia de onde estavam. - Fugir para onde? E que muitos deles com o passar do século nasceram e cresceram na condição de escravo sem saber o significado prático da palavra “liberdade”.
Apesar de todos estes fatores que impediam a reação à escravidão e de sempre ter sido mantido sob controle pelos portugueses, as fugas ocorriam, e dessas fugas surgiram o nosso objeto de análise, a comunidade ( neste caso específico, os quilombos), onde viviam sobre muitos aspectos que classificamos como meios e fins comuns. A liberdade, o refúgio, as relações comerciais autônomas, as produções, suas articulações de defesa, enfim, a participação de todos do seu núcleo de forma ativa que os levava a uma melhor condição de vida que não fosse à escravidão.
Mas essa organização social (comunidade) era fora dos padrões do poder vigente, sendo assim, foi considerada subversiva, uma ameaça ao status quo. Logo marginalizada. E todos os esforços foram feitos até que esta “ameaça” fosse aniquilada. Sua existência como comunidade só era aceita se fosse dentro das senzalas, ou seja, uma comunidade submissa, oprimida e organizada se cima para baixo.
Se avançarmos um pouco mais no tempo, veremos que no final do século XIX, já a barra das saias da Lei Áurea na região do Nordeste, houve outro suspiro de formação de uma comunidade. Refiro-me a cidade de Canudos.
Região dominada por fazendeiros (coronéis), uma minoria privilegiada que vivia à custa da exploração do trabalho da miserável população sertaneja. A insatisfação com o destino que suas vidas se encaminhavam e com os rumos que a proclamação da república traçava, abriu a lacuna para serem impulsionados e organizados por uma liderança religiosa, a se rebelaram e migrarem de suas cidades a caminho Canudos, como se ela fosse a São Paulo da época, (no sentido que os sertanejos depositaram a esperança de uma vida melhor na cidade de Canudos) da qual não precisavam jogar as regras da república pagando impostos injustos e possibilitando a construção de uma vida que não fosse apenas sucumbir às mazelas.
Obviamente, mais uma vez, as forças do governo simplesmente se fizeram valer. Apesar da longa resistência, acabaram por riscar Canudos do mapa, proporcionando uma das maiores carnificinas (25 mil mortos) de nossa história e pendurando a cabeça de seus líderes para que fique de lição que não é cabível neste país a formação de qualquer tipo de organização popular. A corrente filosófica do Positivismo de August Comte influenciava fortemente nossa política neste período, que as transformações e soluções dos problemas deveriam ser confiadas cegamente às forças do Estado, que apenas por si e pela ciência a sociedade evoluiria em todos os aspectos. Este modo de enxergar a realidade era tido como verdade absoluta.
No século XX, o país, ao caminhar para sua revolução industrial, revolução que transformou as estruturas da sociedade por um lado e de outro manteve as condições de organização social nos mesmos propósitos. O poder continuou privilegiando uma minoria. E não foi diferente o processo de formação dos grandes centros urbanos.
Os grupos que surgiram na década de 1920 conhecidos como anarco-sindicalistas e a formação do PCB, propunham que uma revolução fosse feita no Brasil visando uma sociedade mais justa que não fosse conduzida por oligarquias, mas conduzidas pelos trabalhadores. O resultado não passou de algumas conquistas trabalhistas que muitas vezes não passaram de promessas, logo foram desmobilizados e marginalizados ( ser chamado de anarquista era uma ofensa neste período levando o indivíduo ao risco de prisão caso fosse provado que ele realmente o fosse).
Na década de 1960, diversos grupos politizados, com relações recíprocas, com meios e fins comuns, incomodavam o a aristocracia civil e militar na exigência de reformas sociais e questionando o governo. O preço pago foi à desarticulação e perseguição dos movimentos sociais durante 20 anos. E o maior êxito deste governo foi a trabalho incessante em cima de um projeto de educação que nos deixou seqüelas até hoje, onde a escola se afastou totalmente da responsabilidade de criar um ambiente de reflexão, de formação de seres questionadores. Este talvez seja o que mais tenha nos causado danos. Ao fragilizar a nossa capacidade de questionar, ao mesmo tempo ampliou o poder de dominação do status quo sobre as massas, que hoje utiliza os mais modernos meios de comunicação para alienar e criar barreiras ainda maiores para a organização da sociedade por conta dela própria. Reforça-se ainda mais a marginalização dos movimentos sociais por conta da própria sociedade em todos os seus níveis. Dificilmente vemos por ai uma simpatia popular em relação a greves, manifestações sociais... O que reproduzimos nada mais é que o discurso televisivo, “... que são uns desordeiros, deveriam trabalhar ao invés de ficarem fazendo arruaça por ai.”
Se no período da ditadura ou na redemocratização o Estado utilizou todos os artifícios, seja da desestruturação do ensino ou da alienação por meios de comunicação, o século XXI iniciou com mais um grande obstáculo, um filho do século XX conhecido como Neoliberalismo. Com uma política que visa às relações de mercado a cima do Estado, tende a não enxergar mais o cidadão e sim o consumidor, se existem comunidades, são comunidades de consumidores. Grupos que tem determinadas “necessidades” em comum, para que consumam em comum e alimentem o mercado. Este grupo que consome em comum é visivelmente encontrado em “tribos” formadas partindo de estereótipos e arquétipos, seja na construção de ídolos em comum, marcas, estilos musicais, condições de gênero, faixa etária, esportes... Nascem elos que ultrapassam a perspectiva de regionalidade (cultura regional), mas ao mesmo tempo é superada também movimenta um mercado específico para suas especificidades. Tudo passa a impulsionar o mercado, tudo vira produto. A frase de Marx se faz mais uma vez atual: “Para entendermos a nossa sociedade, baste entender o mercado que nos rege”. E até quando o capitalismo demonstra crise e surgem símbolos contra a si próprios, o sistema cria produtos para estes contrários consumirem e os que se reconhecem contra este modelo acabam alimentando e fortalecendo a perpetuação desta condição. Este modelo de comunidade que o neoliberalismo cria tem para nós um sentido de contramão-comunitária. A nossa eterna insatisfação e nosso eterno desejo de consumir determinados produtos que nos faça sentir melhor ou pertencente a algum grupo que parte sempre da satisfação individual é resultado da incapacidade de analisar e refletir sobre essas condições pré-concebidas, e pior, muitas vezes é percebida mas, não é combatida, pois o indivíduo se adaptou a uma condição de mundo que respira essas relações desde seu nascimento causando neste mesmo indivíduo a construção e consolidação de uma cultura.
A criminalidade organizada se aproveita deste processo de fragilização social na qual a sociedade se encontra, apontando caminhos que desvirtuam e ao mesmo tempo que organizam o meio, mas a sua maneira. O crime se organiza onde o descaso impera e onde a sociedade é desorganizada.
Para consolidar ainda mais a comunidade de mercado, a publicidade vem investindo em Marketing Cultural, as empresas patrocinam eventos esportivos, teatrais, filantrópicos... Expõe suas marcas em atividades culturais, sobre referências vitoriosas vestindo a máscara de incentivo a cultura para fortalecer seu nome no mercado e criar uma relação de fidelidade com o consumidor.
Com esta análise, se não conseguimos detectar todos os fatores que impedem a formação de uma comunidade participativa ou que contribuem para desarticulá-la, conseguimos determinar pontos de extrema relevância, sejam esses fatores históricos, culturais, sociais, políticos e econômicos. E que apesar de toda carga histórica um grande promovedor das maleficências da sociedade contemporânea são os que lucram com esta dinâmica de mercado, funcionando como reforçadores dessa condição a todo o tempo. Se o caminho de adaptação ao mundo em que vivemos se apresenta como prejudicial, alienante e a controlados político, torna-se evidente a necessidade de busca de outros rumos. Um rumo na contra mão desta proposta, a busca da inserção ao mundo. Uma possibilidade que o coloca a condição de analisar a sua realidade e não simplesmente aceitá-la e sim transformá-la, situação totalmente oposta à adaptação que nos submete a condições pré-concebidas.
O que se apresenta bem claramente é que a sociedade desarticulada, irreflexiva e não participativa, vem do projeto de consolidação de uma cultura de banalização de valores comunitários substituindo-os por valores do capital. A necessidade de um caminho inverso a este implantado, se apresenta como necessária para a formação de comunidades atuantes, que não se preocupe apenas com as especificidades particulares de cada individuo, mas que proporcione melhorias em suas vidas e funcione como um grito de aviso indicando que estamos aqui e não existimos apenas no dia das eleições.
O processo de transição da desconstrução de uma cultura e de formação e consolidação de outra que respeite as condições regionais e culturais de cada espaço é um caminho muito longo a ser percorrido e necessita de paciência e muito trabalho das próprias pessoas de dentro das comunidades. Como vimos no princípio do texto, em muitos momentos de nossa história tivemos formações de comunidades atuantes organizadas de baixo para cima. Mas que dentro delas, houve lideranças que contribuíram para a articulação das comunidades. Figuras das quais me refiro como vanguardas. Aponto como referenciais históricos, Zumbi em Palmares e Antônio Conselheiro em Canudos.
O surgimento de vanguardas de dentro das próprias comunidades, que tenha facilidade de comunicação com todos e esteja engajada na luta pela melhora de sua realidade, que vise à construção de um ambiente democrático participativo onde todos possam opinar e decidir o que é melhor para todos ( não instituir um poder na comunidade).
O fato de haver a necessidade de formação de vanguardas nas comunidades brasileiras não significa que afirmo a inexistência delas. Muito pelo contrário, em muitas comunidades é presente a preocupação com a melhoria de condições da população que convive sob mesmo espaço ( comunidades atuantes). A prova maior são as associações de mutuários, associações de multirantes, os institutos de arte e cultura formada em comunidades reforçam a recíproca de que desarticulação sociocomunitária e desinteresse de alterar o tal, não pode ser tomada como fenômeno generalizado. Se a descrença pela iniciativa governamental levou a sociedade ao desinteresse e banalização da política no Brasil, nas comunidades onde a cooperação dá certo, provaram que esta mesma descrença pôde ser utilizada para que as próprias comunidades se mobilizarem.
O acesso a uma proposta de educação que atinja os objetivos dos quais liberte a sociedade de preconceitos, marginalizações desta condição do não refletir e não querer pensar sobre o que lhe é imposto pelo próprio sistema, que leve a percepção de que a entidade pública pode ter qualidade porque ela própria é o público presente, de que depende dela exigir o melhor destes órgãos. Que consigam perceber que precisam exigir e construir um ambiente escolar que busque humanizar, intelectualizar e profissionalizar. Infelizmente, a realidade que vivemos ainda é vista pelo status quo como munição ou ferramenta para se manter uma estrutura que dá lucro e que ao mesmo tempo escraviza.
Os rumos que traçamos nossa história devem ser alterados. Torna-se no mínimo relevante, a discussão que busque apontar para a formação de culturas comunitárias, que contribuam para que se tire as vendas dos olhos do povo que o passado colocou e que o presente tratou de mantê-las muito bem amarradas.









Bibliografia
WWW.ibge.gov.br
www.paulofreire.ufpb.com.br
Ribeiro, Darcy. As Américas e a Civilização: Processo de Formação e Causas do Desenvolvimento Cultural Desigual dos Povos Americanos. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
Fernandes, Florestan. Comunidade e Sociedade: Leitura Sobre Problemas Conceituais, Metodológicos e de Aplicação. São Paulo: Nacional, UDESP, 1973.
Freyre, Gilberto. Casa-Grande e Senzala: Formação da Família Brasileira sob o Regime Patriarcal. 51ª Edição. São Paulo: Editora Global, 2006.
Fausto, Boris. História do Brasil. 6ª Edição. São Paulo: UDESP, 1998.
Marx, Karl. Manifesto do Partido Comunista 1848, Tradução: Sueli Tomazini Barros Cassal. 1ª Edição. São Paulo, 2001.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O MENDIGO E EU.


...17:45hs Hora boa de sair, em 15 minutos o contingente explode, transitar compressa é desviar dos menos velozes, atravessar fora da faixa e até contornar carros e ônibus parados na pista. - Contemplar? Só se for o próximo obstáculo a transpor... um camelô, um poste, um desfilante... é impresionante como quando temos pressa os outros parecem caminhar numa passarela exibindo sua lentidão e inconveniência. Sugiro aqui que faixas de velocidade,tal como avenidas, deveriam ser pintadas também nas calçadas. Ao simóveis e estáticos humanos destinaríamos a faixa de acostamento,garantindo-lhes por cidadania a não invasão de transeuntes. Imagine se uma infinidade de serviços que hoje são disponíveis de forma online não existisse e para isto as pessoas tivessem que sair... emplacariamos o cara e instituiríamos o sistema de rodízio.É muita gente!!!...17:45hs.A sombra de arranha-céus antecipa o fim do dia escondendo os últimos raios de sol. É o primeiro minuto do tempo que eu escolhi não vender. Não há pressa, do Marco Zero à Liberdade e de lá ao Paraíso. O caminho íngreme esculpe o corpo e não gasto com o Metrô. Organizo os pensamentos e vejo pessoas, e ao que parece também sou visto... - Hei irmão firmeza? Dá licença aí... Aproximou-se com as mãos nos bolsos, vestia uma bermuda que ultrapassava os joelhos em comprimento, usava boné e este não escondia o cabelo comprido e despenteado que escorria por uma blusa encardida e escura.Vi sua face que esforçara-se em ser amigável e objetiva ao mesmo tempo e antes que eu pudesse responder ele adiantou sua introdução.- Não irmão, não quero dinheiro não! Só queria rolar uma idéia.- Sem problemas! Então vamos conversar, não vou parar, caminhe comigo! - solicitei Acompanhando-me ao subir a rua ao lado da Catedral da Sé continuou:- Sabe que é, eu moro na rua e...- Putz cara ! Como é que é esse negócio de morarna rua? - perguntei interrompendo-o - Ah é maior veneno, quando tá frio tem que caçar com o que se cobrir, quando tá calor não tem onde tomar um banho. Mas eu queria ver com você...- Há quanto tempo você tá na rua? - perguntei,interrompendo-o novamente. - Três meses véio, é que eu tava preso aí eu saí e tô nessa - desabafou - Putz, todo mundo erra mas te trancam e quando te soltam te largam na vida, na condição de ex-detento pra se virar. -comentei Paramos no farol, aguardando o sinal para atravesarmos até a Liberdade enquanto ele dizia: - Então véio mas o que eu queria ver com você é... você pode pagar um bagulho aí pra eu comer? Tô com maior fome... - pediu-me- Olha só que coisa cara! - chamei sua atenção Ele pareceu curioso.Continuei:-O que é pior? Morar na rua e tá aqui me pedindo uma parada pra comer ou trabalhar o mês inteiro longe da família e não ter um Real no bolso pra te pagar um lanche? - desabafei O homem me olhou estranhamente como se seu pensamento percorresse minha pergunta, produzindo a experiência que eu descrevera. - Ah é melhor trampar né! - voltou de órbita repondendo-me com um sorriso terno.- Enfiar-se num escritório entre quatro paredes e no que te resta do dia meter a mão no bolso e não ter um Real? -queixei-me novamente. Sua feição pareceu encher-se de dúvida e convertia-se a um semblante de solidariedade. Não sei se para me reafirmar ou para aliviá-lo da necessidade de qualquer comentário ou ação, antes que talvez ele tirasse uma moeda do bolso e me oferecesse eu disse: - Trabalhamos pelos outros... a família. - conclui- É... então! - concordou afastando-se- Mas quando eu tiver caso o veja por aí... é nóis! - despedi-me vendo-o descer a rua.No dia seguinte, dia de pagamento, voltei a Pça da Sé por onde passo habitualmente e procurei-o afim de pagar-lhe um lanche, mas não o encontrei... sei lá porque, talvez porque fosse livre e não precisasse permanecer onde não queria.


Alexandre Fernandes

sábado, 5 de junho de 2010

O Poder


Como poder construir sem destruir?
Se ao fazer uma coisa acaba-se com outra
Se ao entrar uma vez é preciso sair
E como evitar um desencontro em um encontro?
E ao pensar nisso tudo me pego a refletir

E o que adianta ter poder
Se não posso evitar a hora de morrer
É ai que se entra a questão
Qual a vantagem de ter poder e destruir então?

Se ao construir uma casa faço uma família feliz
Quantas pessoas farei chorar ao destruir?
E se ao mesmo tempo nada acontecer
O que irá eu fazer se nada fiz sem perceber!


Talita Alonso da Cunha