quinta-feira, 22 de julho de 2010

Pensando Comunidade no Brasil.



Se levarmos em consideração as condições geográficas do Brasil, com seu território alcança 8.514.215,3 Km³ e que neste vasto espaço temos um emaranhado populacional de aproximadamente 190 milhões de brasileiros vivendo em 5.507 municípios, em 27 unidades de Federação chegando a um total de 54.265.618 moradias, e uma diversidade cultural tão ampla quanto seu território. Uma mistura de raças jamais vista em qualquer parte do mundo. Sem contar com a situação socioeconômica de cada grupo social existente por aqui. Diversidade que fez o Antropólogo Darcy Ribeiro se referir a esta nação como a “Nova Roma”, nos dá um caráter pretensioso ao querer tratar de um conceito tão complexo diante de tantas diferenças dentro de nosso país, correndo o risco de analisá-lo de forma generalizante.
Levando em consideração todos os dados iniciais para tratar este assunto, busquei me apropriar da definição do Sociólogo Florestan Fernandes que se refere ao significado da palavra (comunidade) da seguinte forma:
“Comunidade se traduz em um conjunto de pessoas que se organizam sob o mesmo conjunto de normas, geralmente vivem no mesmo local, sob o mesmo governo ou compartilham do mesmo legado cultural e histórico. É um grupo territorial de indivíduos com relações recíprocas, que servem de meios comuns para lograr fins comuns.”
Mas se de um lado a grande diversidade nos separa, por outro propicia um fenômeno muito peculiar que de certa forma nos uni, a “regionalidade”. Este fator com certeza cria uma aura de identificação cultural. Essa identificação se faz notória quando vemos gaúchos cultivando hábito de tomar chimarrão e comer churrasco, do carioca com o samba, do carnaval na Bahia, do pão de queijo com o mineiro e de uma forma geral o futebol com o brasileiro...
Mas será que estes fatores regionais culturais são suficientes para impulsionar pessoas que moram na mesma cidade, mesmo bairro, na mesma rua a se organizarem e articularem em prol da mesma causa? Será que há a mesma causa? Mesmos interesses?
Ao mesmo tempo em que podemos afirmar que sim para essas interrogações, também podemos verificar durante a nossa história, a existência de capítulos que apontaram muitos denominadores comuns, mas, que os restos e as diferenças muitas vezes impediram a realização de formação de uma comunidade engajada e participante e quando esses obstáculos foram superados as mesmas foram marginalizadas, consideradas subversivas, uma ameaça ao status quo, sendo dizimadas em nome da “ordem e do progresso”.
A primeira grande dificuldade de formação de comunidades segundo o significado proposto neste texto, a partir da organização feita de baixo pra cima, por mais difícil que possa parecer foi no processo de escravidão negra no Brasil, a final de contas tinham muito em comum para se unirem e fazer valer sua voz (no caso, a busca da liberdade). A escravidão negra no Brasil tem seu início no século XVI por volta de 1570 ocasionando posteriormente o “fim” da escravidão indígena, por os fidalgos portugueses acreditarem que os africanos eram mais aptos para trabalharem na plantação e extração de cana-de-açúcar(produto gerador de maior riqueza da época). Com isso no século XVIII a população negra no Brasil já era uma maioria bem significativa. E a pergunta que se faz é: Por que não se rebelaram? Por que não se organizaram e lutaram contra o fim da escravidão?
A resposta pode vir de diversas formas. Se partirmos de algumas colocações étnicas, geográficas e sociais, perceberemos que os africanos vinham de suas terras muitas vezes separados de seus povos, misturado com outros rivais ou de domínio de idiomas ou dialetos diferentes (leve-se em consideração que a África é um continente que fala mais de 56 mil línguas e dialetos diferentes), que estavam longe de casa, atravessaram um oceano e não tinham a menor idéia de onde estavam. - Fugir para onde? E que muitos deles com o passar do século nasceram e cresceram na condição de escravo sem saber o significado prático da palavra “liberdade”.
Apesar de todos estes fatores que impediam a reação à escravidão e de sempre ter sido mantido sob controle pelos portugueses, as fugas ocorriam, e dessas fugas surgiram o nosso objeto de análise, a comunidade ( neste caso específico, os quilombos), onde viviam sobre muitos aspectos que classificamos como meios e fins comuns. A liberdade, o refúgio, as relações comerciais autônomas, as produções, suas articulações de defesa, enfim, a participação de todos do seu núcleo de forma ativa que os levava a uma melhor condição de vida que não fosse à escravidão.
Mas essa organização social (comunidade) era fora dos padrões do poder vigente, sendo assim, foi considerada subversiva, uma ameaça ao status quo. Logo marginalizada. E todos os esforços foram feitos até que esta “ameaça” fosse aniquilada. Sua existência como comunidade só era aceita se fosse dentro das senzalas, ou seja, uma comunidade submissa, oprimida e organizada se cima para baixo.
Se avançarmos um pouco mais no tempo, veremos que no final do século XIX, já a barra das saias da Lei Áurea na região do Nordeste, houve outro suspiro de formação de uma comunidade. Refiro-me a cidade de Canudos.
Região dominada por fazendeiros (coronéis), uma minoria privilegiada que vivia à custa da exploração do trabalho da miserável população sertaneja. A insatisfação com o destino que suas vidas se encaminhavam e com os rumos que a proclamação da república traçava, abriu a lacuna para serem impulsionados e organizados por uma liderança religiosa, a se rebelaram e migrarem de suas cidades a caminho Canudos, como se ela fosse a São Paulo da época, (no sentido que os sertanejos depositaram a esperança de uma vida melhor na cidade de Canudos) da qual não precisavam jogar as regras da república pagando impostos injustos e possibilitando a construção de uma vida que não fosse apenas sucumbir às mazelas.
Obviamente, mais uma vez, as forças do governo simplesmente se fizeram valer. Apesar da longa resistência, acabaram por riscar Canudos do mapa, proporcionando uma das maiores carnificinas (25 mil mortos) de nossa história e pendurando a cabeça de seus líderes para que fique de lição que não é cabível neste país a formação de qualquer tipo de organização popular. A corrente filosófica do Positivismo de August Comte influenciava fortemente nossa política neste período, que as transformações e soluções dos problemas deveriam ser confiadas cegamente às forças do Estado, que apenas por si e pela ciência a sociedade evoluiria em todos os aspectos. Este modo de enxergar a realidade era tido como verdade absoluta.
No século XX, o país, ao caminhar para sua revolução industrial, revolução que transformou as estruturas da sociedade por um lado e de outro manteve as condições de organização social nos mesmos propósitos. O poder continuou privilegiando uma minoria. E não foi diferente o processo de formação dos grandes centros urbanos.
Os grupos que surgiram na década de 1920 conhecidos como anarco-sindicalistas e a formação do PCB, propunham que uma revolução fosse feita no Brasil visando uma sociedade mais justa que não fosse conduzida por oligarquias, mas conduzidas pelos trabalhadores. O resultado não passou de algumas conquistas trabalhistas que muitas vezes não passaram de promessas, logo foram desmobilizados e marginalizados ( ser chamado de anarquista era uma ofensa neste período levando o indivíduo ao risco de prisão caso fosse provado que ele realmente o fosse).
Na década de 1960, diversos grupos politizados, com relações recíprocas, com meios e fins comuns, incomodavam o a aristocracia civil e militar na exigência de reformas sociais e questionando o governo. O preço pago foi à desarticulação e perseguição dos movimentos sociais durante 20 anos. E o maior êxito deste governo foi a trabalho incessante em cima de um projeto de educação que nos deixou seqüelas até hoje, onde a escola se afastou totalmente da responsabilidade de criar um ambiente de reflexão, de formação de seres questionadores. Este talvez seja o que mais tenha nos causado danos. Ao fragilizar a nossa capacidade de questionar, ao mesmo tempo ampliou o poder de dominação do status quo sobre as massas, que hoje utiliza os mais modernos meios de comunicação para alienar e criar barreiras ainda maiores para a organização da sociedade por conta dela própria. Reforça-se ainda mais a marginalização dos movimentos sociais por conta da própria sociedade em todos os seus níveis. Dificilmente vemos por ai uma simpatia popular em relação a greves, manifestações sociais... O que reproduzimos nada mais é que o discurso televisivo, “... que são uns desordeiros, deveriam trabalhar ao invés de ficarem fazendo arruaça por ai.”
Se no período da ditadura ou na redemocratização o Estado utilizou todos os artifícios, seja da desestruturação do ensino ou da alienação por meios de comunicação, o século XXI iniciou com mais um grande obstáculo, um filho do século XX conhecido como Neoliberalismo. Com uma política que visa às relações de mercado a cima do Estado, tende a não enxergar mais o cidadão e sim o consumidor, se existem comunidades, são comunidades de consumidores. Grupos que tem determinadas “necessidades” em comum, para que consumam em comum e alimentem o mercado. Este grupo que consome em comum é visivelmente encontrado em “tribos” formadas partindo de estereótipos e arquétipos, seja na construção de ídolos em comum, marcas, estilos musicais, condições de gênero, faixa etária, esportes... Nascem elos que ultrapassam a perspectiva de regionalidade (cultura regional), mas ao mesmo tempo é superada também movimenta um mercado específico para suas especificidades. Tudo passa a impulsionar o mercado, tudo vira produto. A frase de Marx se faz mais uma vez atual: “Para entendermos a nossa sociedade, baste entender o mercado que nos rege”. E até quando o capitalismo demonstra crise e surgem símbolos contra a si próprios, o sistema cria produtos para estes contrários consumirem e os que se reconhecem contra este modelo acabam alimentando e fortalecendo a perpetuação desta condição. Este modelo de comunidade que o neoliberalismo cria tem para nós um sentido de contramão-comunitária. A nossa eterna insatisfação e nosso eterno desejo de consumir determinados produtos que nos faça sentir melhor ou pertencente a algum grupo que parte sempre da satisfação individual é resultado da incapacidade de analisar e refletir sobre essas condições pré-concebidas, e pior, muitas vezes é percebida mas, não é combatida, pois o indivíduo se adaptou a uma condição de mundo que respira essas relações desde seu nascimento causando neste mesmo indivíduo a construção e consolidação de uma cultura.
A criminalidade organizada se aproveita deste processo de fragilização social na qual a sociedade se encontra, apontando caminhos que desvirtuam e ao mesmo tempo que organizam o meio, mas a sua maneira. O crime se organiza onde o descaso impera e onde a sociedade é desorganizada.
Para consolidar ainda mais a comunidade de mercado, a publicidade vem investindo em Marketing Cultural, as empresas patrocinam eventos esportivos, teatrais, filantrópicos... Expõe suas marcas em atividades culturais, sobre referências vitoriosas vestindo a máscara de incentivo a cultura para fortalecer seu nome no mercado e criar uma relação de fidelidade com o consumidor.
Com esta análise, se não conseguimos detectar todos os fatores que impedem a formação de uma comunidade participativa ou que contribuem para desarticulá-la, conseguimos determinar pontos de extrema relevância, sejam esses fatores históricos, culturais, sociais, políticos e econômicos. E que apesar de toda carga histórica um grande promovedor das maleficências da sociedade contemporânea são os que lucram com esta dinâmica de mercado, funcionando como reforçadores dessa condição a todo o tempo. Se o caminho de adaptação ao mundo em que vivemos se apresenta como prejudicial, alienante e a controlados político, torna-se evidente a necessidade de busca de outros rumos. Um rumo na contra mão desta proposta, a busca da inserção ao mundo. Uma possibilidade que o coloca a condição de analisar a sua realidade e não simplesmente aceitá-la e sim transformá-la, situação totalmente oposta à adaptação que nos submete a condições pré-concebidas.
O que se apresenta bem claramente é que a sociedade desarticulada, irreflexiva e não participativa, vem do projeto de consolidação de uma cultura de banalização de valores comunitários substituindo-os por valores do capital. A necessidade de um caminho inverso a este implantado, se apresenta como necessária para a formação de comunidades atuantes, que não se preocupe apenas com as especificidades particulares de cada individuo, mas que proporcione melhorias em suas vidas e funcione como um grito de aviso indicando que estamos aqui e não existimos apenas no dia das eleições.
O processo de transição da desconstrução de uma cultura e de formação e consolidação de outra que respeite as condições regionais e culturais de cada espaço é um caminho muito longo a ser percorrido e necessita de paciência e muito trabalho das próprias pessoas de dentro das comunidades. Como vimos no princípio do texto, em muitos momentos de nossa história tivemos formações de comunidades atuantes organizadas de baixo para cima. Mas que dentro delas, houve lideranças que contribuíram para a articulação das comunidades. Figuras das quais me refiro como vanguardas. Aponto como referenciais históricos, Zumbi em Palmares e Antônio Conselheiro em Canudos.
O surgimento de vanguardas de dentro das próprias comunidades, que tenha facilidade de comunicação com todos e esteja engajada na luta pela melhora de sua realidade, que vise à construção de um ambiente democrático participativo onde todos possam opinar e decidir o que é melhor para todos ( não instituir um poder na comunidade).
O fato de haver a necessidade de formação de vanguardas nas comunidades brasileiras não significa que afirmo a inexistência delas. Muito pelo contrário, em muitas comunidades é presente a preocupação com a melhoria de condições da população que convive sob mesmo espaço ( comunidades atuantes). A prova maior são as associações de mutuários, associações de multirantes, os institutos de arte e cultura formada em comunidades reforçam a recíproca de que desarticulação sociocomunitária e desinteresse de alterar o tal, não pode ser tomada como fenômeno generalizado. Se a descrença pela iniciativa governamental levou a sociedade ao desinteresse e banalização da política no Brasil, nas comunidades onde a cooperação dá certo, provaram que esta mesma descrença pôde ser utilizada para que as próprias comunidades se mobilizarem.
O acesso a uma proposta de educação que atinja os objetivos dos quais liberte a sociedade de preconceitos, marginalizações desta condição do não refletir e não querer pensar sobre o que lhe é imposto pelo próprio sistema, que leve a percepção de que a entidade pública pode ter qualidade porque ela própria é o público presente, de que depende dela exigir o melhor destes órgãos. Que consigam perceber que precisam exigir e construir um ambiente escolar que busque humanizar, intelectualizar e profissionalizar. Infelizmente, a realidade que vivemos ainda é vista pelo status quo como munição ou ferramenta para se manter uma estrutura que dá lucro e que ao mesmo tempo escraviza.
Os rumos que traçamos nossa história devem ser alterados. Torna-se no mínimo relevante, a discussão que busque apontar para a formação de culturas comunitárias, que contribuam para que se tire as vendas dos olhos do povo que o passado colocou e que o presente tratou de mantê-las muito bem amarradas.









Bibliografia
WWW.ibge.gov.br
www.paulofreire.ufpb.com.br
Ribeiro, Darcy. As Américas e a Civilização: Processo de Formação e Causas do Desenvolvimento Cultural Desigual dos Povos Americanos. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
Fernandes, Florestan. Comunidade e Sociedade: Leitura Sobre Problemas Conceituais, Metodológicos e de Aplicação. São Paulo: Nacional, UDESP, 1973.
Freyre, Gilberto. Casa-Grande e Senzala: Formação da Família Brasileira sob o Regime Patriarcal. 51ª Edição. São Paulo: Editora Global, 2006.
Fausto, Boris. História do Brasil. 6ª Edição. São Paulo: UDESP, 1998.
Marx, Karl. Manifesto do Partido Comunista 1848, Tradução: Sueli Tomazini Barros Cassal. 1ª Edição. São Paulo, 2001.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

O MENDIGO E EU.


...17:45hs Hora boa de sair, em 15 minutos o contingente explode, transitar compressa é desviar dos menos velozes, atravessar fora da faixa e até contornar carros e ônibus parados na pista. - Contemplar? Só se for o próximo obstáculo a transpor... um camelô, um poste, um desfilante... é impresionante como quando temos pressa os outros parecem caminhar numa passarela exibindo sua lentidão e inconveniência. Sugiro aqui que faixas de velocidade,tal como avenidas, deveriam ser pintadas também nas calçadas. Ao simóveis e estáticos humanos destinaríamos a faixa de acostamento,garantindo-lhes por cidadania a não invasão de transeuntes. Imagine se uma infinidade de serviços que hoje são disponíveis de forma online não existisse e para isto as pessoas tivessem que sair... emplacariamos o cara e instituiríamos o sistema de rodízio.É muita gente!!!...17:45hs.A sombra de arranha-céus antecipa o fim do dia escondendo os últimos raios de sol. É o primeiro minuto do tempo que eu escolhi não vender. Não há pressa, do Marco Zero à Liberdade e de lá ao Paraíso. O caminho íngreme esculpe o corpo e não gasto com o Metrô. Organizo os pensamentos e vejo pessoas, e ao que parece também sou visto... - Hei irmão firmeza? Dá licença aí... Aproximou-se com as mãos nos bolsos, vestia uma bermuda que ultrapassava os joelhos em comprimento, usava boné e este não escondia o cabelo comprido e despenteado que escorria por uma blusa encardida e escura.Vi sua face que esforçara-se em ser amigável e objetiva ao mesmo tempo e antes que eu pudesse responder ele adiantou sua introdução.- Não irmão, não quero dinheiro não! Só queria rolar uma idéia.- Sem problemas! Então vamos conversar, não vou parar, caminhe comigo! - solicitei Acompanhando-me ao subir a rua ao lado da Catedral da Sé continuou:- Sabe que é, eu moro na rua e...- Putz cara ! Como é que é esse negócio de morarna rua? - perguntei interrompendo-o - Ah é maior veneno, quando tá frio tem que caçar com o que se cobrir, quando tá calor não tem onde tomar um banho. Mas eu queria ver com você...- Há quanto tempo você tá na rua? - perguntei,interrompendo-o novamente. - Três meses véio, é que eu tava preso aí eu saí e tô nessa - desabafou - Putz, todo mundo erra mas te trancam e quando te soltam te largam na vida, na condição de ex-detento pra se virar. -comentei Paramos no farol, aguardando o sinal para atravesarmos até a Liberdade enquanto ele dizia: - Então véio mas o que eu queria ver com você é... você pode pagar um bagulho aí pra eu comer? Tô com maior fome... - pediu-me- Olha só que coisa cara! - chamei sua atenção Ele pareceu curioso.Continuei:-O que é pior? Morar na rua e tá aqui me pedindo uma parada pra comer ou trabalhar o mês inteiro longe da família e não ter um Real no bolso pra te pagar um lanche? - desabafei O homem me olhou estranhamente como se seu pensamento percorresse minha pergunta, produzindo a experiência que eu descrevera. - Ah é melhor trampar né! - voltou de órbita repondendo-me com um sorriso terno.- Enfiar-se num escritório entre quatro paredes e no que te resta do dia meter a mão no bolso e não ter um Real? -queixei-me novamente. Sua feição pareceu encher-se de dúvida e convertia-se a um semblante de solidariedade. Não sei se para me reafirmar ou para aliviá-lo da necessidade de qualquer comentário ou ação, antes que talvez ele tirasse uma moeda do bolso e me oferecesse eu disse: - Trabalhamos pelos outros... a família. - conclui- É... então! - concordou afastando-se- Mas quando eu tiver caso o veja por aí... é nóis! - despedi-me vendo-o descer a rua.No dia seguinte, dia de pagamento, voltei a Pça da Sé por onde passo habitualmente e procurei-o afim de pagar-lhe um lanche, mas não o encontrei... sei lá porque, talvez porque fosse livre e não precisasse permanecer onde não queria.


Alexandre Fernandes

sábado, 5 de junho de 2010

O Poder


Como poder construir sem destruir?
Se ao fazer uma coisa acaba-se com outra
Se ao entrar uma vez é preciso sair
E como evitar um desencontro em um encontro?
E ao pensar nisso tudo me pego a refletir

E o que adianta ter poder
Se não posso evitar a hora de morrer
É ai que se entra a questão
Qual a vantagem de ter poder e destruir então?

Se ao construir uma casa faço uma família feliz
Quantas pessoas farei chorar ao destruir?
E se ao mesmo tempo nada acontecer
O que irá eu fazer se nada fiz sem perceber!


Talita Alonso da Cunha

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Alhearam Mais Um Cidadão.


Até quando essa opressão?
Parece que o não conhecer
Causa a má informação
É... se espelha na televisão
Plim, plim...
Acorde! Acorde!
Essa ditadura ideológica desenfreada acobertada
Que te empregam...
Te deixa cego
A rua de terra...
Quem mora na rua de terra?
São vadias?
São marginais?
É só isso que são?
Será que são?
São eles os impuros?
De caráter imundo?
Que medo é esse?
A verdade está na sua cara!
Essa sua esperteza
Não é inteligente
Não tá com nada!
Não deixeis corroer
O que ainda há de bom neste seu coração
Mas a sua arrogância
Ainda é capaz de me dar inspiração.

Angélica Nascimento.
Aluna do E.E. Dom Pedro I.
3º ano.

sábado, 24 de abril de 2010

Pereira Passos do Século XXI.




No mês passado o Rio de Janeiro sofreu mais uma vez com as fortes chuvas, provocando deslizamento de terra na região metropolitana da cidade. Essa tragédia deixou um saldo de mais de 200 mortos, dezenas de feridos e milhares de desabrigados. O “corriqueirismo” com a qual essas tragédias vêm ocorrendo nos impede de utilizar o termo, “fomos surpreendidos com essa catástrofe”. Apesar das grandes proporções do estrago ocorrido nesta ocasião, e pela grande repercussão na mídia em todo país e em boa parte do mundo, todos estão cansados de saber que isso é algo que vem acontecendo já a muito tempo, a única diferença é que desta vez o estrago foi bem maior que todas as outras.
O efeito desta tragédia ultrapassou qualquer dado estatístico apresentado, principalmente se somarmos ai todo o trauma dos sobreviventes que perderam a família inteira, amigos, suas casas,danos que apesar de muito esforço, nenhum sensacionalismo televisivo conseguiu transpassar em toda sua amplitude e profundidade.
Mas o pior que apesar de todos esses ocorridos, tivemos que engolir a seco a declaração do governador e prefeito do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral e Eduardo Paes e o prefeito do Município de Niterói, o senhor Jorge Roberto Silveira, declarando a imprensa “a sete ventos” que a culpa de toda desgraça ocorrida era dos próprios moradores que insistem em viver nas áreas de risco. Ou seja, culpando o pobre de ser pobre no Rio de Janeiro.
Para entendermos o quanto foi estapafúrdia esta análise, é extremamente importante olhar um pouco para o passado do Rio de Janeiro, especificamente para o final do século XIX e começo do XX e reparar o quanto foram injustas essas palavras, detectando quantos aspectos de permanências há em relação a mentalidade do governo carioca atual com o do passado.
Para trabalhar este assunto é necessário remexer em algumas feridas que apesar de parecerem cicatrizadas insistem em sangrar. A formação e o crescimento das favelas nos morros do Rio de Janeiro.
Em primeiro lugar, é importante destacar um período marcante e “heróico” de nossa história, ocorrido em 1888, a Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel que decretava o fim da escravidão no Brasil (um dos últimos países do mundo a abandonar esse tipo de atividade).
Apesar de tardio, mas “muito honroso”, afinal de contas reconheceram o erro e ocasionaram "o acerto". Seria o que muitos diriam se resumissem os ocorridos, e durante muito tempo era essa versão que os livros contavam. Mas o que não importaram em se preocupar é que o simples fato de apenas abrir as portas das senzalas não seria o suficiente para dar aos ex-escravos a condição de cidadão. Que seria necessário desenvolver um plano de inclusão social garantindo emprego, moradia, alimentação, saúde... Dignidade. Mas como realizar um projeto deste cunho em uma sociedade que acreditava na inferioridade racial, num país em que ainda não era industrializado, o mercado interno ainda não era desenvolvido, que simplesmente os substituíram pela mão de obra de imigrantes europeus e que em um curto espaço de tempo lançou os negros na exclusão, marginalidade e na vadiagem compulsória?
As condições para o desenvolvimento de uma industrialização e do fortalecimento do mercado interno só aconteceu de forma enfática no começo da década de 1930 quando as tendências mundiais empurraram o Brasil a este rumo como solução para sair da dependência do café como principal agente movimentador de nossa economia. Mas o quadro que temos entre 1888-1929 é de um país agrário e ao mesmo tempo de uma capital (Rio de Janeiro), centro de toda esperança e expectativa de progresso no Brasil, o que atraía a todos os mais pobres de diversas regiões do país (ênfase a moradores da região do nordeste que viviam em condição de penumbra com a seca e dos ex-escravos das zonas cafeeiras do Vale do Paraíba e interior Paulista). Rio de Janeiro para essas pessoas significava esperança, mas a realidade encontrada foi à oposta, uma cidade saturada com o crescimento demográfico, fétida, suja, repleta de cortiços e com o centro da cidade desproporcional a importância que ela passou a ter à nível econômico sendo um dos principais pontos de importação e exportação do país.
Os cortiços, as ruelas, as mínimas condições de saneamento básico, com uma enorme população pobre, desempregada (no máximo com algum tipo de atividade informal que pouco garantia sua subsistência) foram se tornando um peso para uma cidade que precisava se modernizar e atrair investimentos para o país.
O trabalho do historiador Nicolau Sevcenko nos deixou bem claro que rumos a política do presidente Rodrigues Alves(1904-1908) e do prefeito Pereira Passos nomeado por ele, reservaram para uma “modernização a cima de tudo”. O avanço das obras que mudariam o perfil da cidade e que a transformariam numa “Paris tropical” custaria à expulsão da “escória pobre, suja e doente da cidade” deixando de denegrir a imagem da cidade.
Com suas portas arrombadas, tirados a força e logo em seguida demolindo-as no intuito de alongar avenidas trazendo o glamour europeu para a cidade e facilitar o tráfego dos produtos a serem exportados nos portos cariocas. O que restava a população carente era se refugiar nos morros ao redor da cidade e o visual das janelas de seus humildes lares visualizando a cidade do futuro e o sonho de um dia usufruírem de toda essa modernidade da qual decidiram por eles que não iriam pertencer.
Essa realidade vem sendo mantida e aprofundada de acordo com os passos dados pela política capitalista neoliberal, cada vez mais na sociedade aumentando o volume de concentração de riqueza para as minorias privilegiadas no decorrer de todo o século XX, a ponto dessa situação de pobreza e violência nos morros se consolidarem como cultura e de se tornar atração turística da cidade, “ajudando a movimentar a economia”.
De lá pra cá, de 4 em 4 anos os governos pouco tem agido para alterar os rumos desta política de descaso e de exclusão social.
Em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro a prefeitura vem sendo fiel a essa política. Não é a toa que o maior foco de mortes na última tragédia das chuvas ocorreu por lá.
O prefeito Jorge Roberto Silveira, do qual já esteve neste cargo por alguns mandatos ( 16 anos), tem feito muito pouco esforço em todo decorrer deste tempo para transformar essa realidade. Quem afirma que Niterói melhorou muito nos últimos anos provavelmente não conhece algumas regiões periféricas da cidade como: bairro do Fonseca, Cubango, Jurujuba... e outros que de 15 anos pra cá não mudaram praticamente nada.
Já não se pode dizer o mesmo de Icaraí, que por coincidência é o bairro onde reside o prefeito da cidade, num belíssimo apartamento em frente ao mar. Considerado um bairro que "cresce para cima", se tornou incontável a quantidade de prédios luxuosos que foram levantados nos últimos anos, sendo um dos pontos onde a classe média alta carioca anda indo se refugiar já à alguns anos.
Se analisarmos o crescimento de Niterói apenas por Icaraí, chegaremos a constatação de que descobrimos a "Manhattan carioca".
E não há dúvidas de que essa mesma alta classe média se sensibilizou com a Fátima Bernardes anunciando o caos em sua cidade direto do Morro do Bumba, mas ao mesmo tempo não haveria de ser nada que a novela das 8 e os barzinhos das sextas niteroenses amenizassem o impacto causado.
Os anos e décadas passam, os problemas se perpetuam. Estamos às vésperas de uma Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil, em particular, no Rio de Janeiro. Novamente estamos na busca da tal modernização da cidade. A história se repete comprovando a inexistência de sua linearidade e o desafio que nos é colocado agora é: erramos como 1904 ou buscamos outro rumo?
Sérgio Cabral, Eduardo Paes e Jorge Roberto Silveira estão respondendo essa pergunta com muita frieza, em plena fase de discussão sobre divisão dos Royalties do petróleo. O que podemos perceber até então é que em pleno século XXI o Rio de Janeiro volta a ter seu Pereira Passos.


Marcelo A. O. J. Leite.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Greve dos Professores no Estado de São Paulo



HÁ quatro semanas os professores da rede pública do Estado de São Paulo entraram em greve devido a uma série de ataques que o governo Serra vem fazendo a educação.
Nossa categoria é dividida entre efetivos e temporários (os últimos compõem 48%), ambos realizam o mesmo trabalho, mas os temporários não têm os mesmos direitos, são submetidos a contratos de um ano, e ainda por cima os que não conseguem atribuição de aula, os “eventuais”, são obrigados a tapar buraco nas escolas diante da ausência de professores, a dar aula de disciplinas que não foram habilitados para ministrar não tendo garantia de quanto receberão a cada mês.
Os professores efetivos também são submetidos a péssimas condições de trabalho e salários, chegando a ser um dos salários de professor estadual mais baixos do Brasil. Para completar a renda somos obrigados a ter longas jornadas, acumulando cargo ou nos dividindo entre duas, três escolas, gastando o pouco dinheiro que ganhamos com transporte e alimentação. Com salas superlotadas de até 50 alunos, somos obrigados a custear com nosso dinheiro, o material necessário para desenvolvermos uma aula de qualidade, sem contar nas doenças físicas e mentais que nos afligem pelo excesso de trabalho. Estas são as conseqüências de anos de ataques do governo estadual e lutas que foram derrotadas pela política da direção de nosso sindicato que permitiu que passassem os ataques e agora os naturaliza. A divisão da categoria é um produto dessas derrotas que sofremos todos. Por isso, a unidade de efetivos e temporários é uma condição para a vitória.
O recomeço dos ataques.
Há cerca de dois anos o governo Serra seguiu com a política de precarização. Primeiro, em 2008, com o decreto nº 53.037/08 com a implementação da avaliações do desempenho aos professores temporários, com o intuito de descarregar sobre as costas do professor a culpa pela péssima qualidade do ensino.
Em junho de 2009, mais ataques e precarização de todo o funcionalismo público de estado de São Paulo, com o PLC 19 e o PLC 20. O PLC 19, legalizando a forma de contratação temporária de qualquer categoria do funcionalismo público, com contrato no máximo de 12 meses e, depois desse tempo o funcionário seria demitido tendo de aguardar 200 dias para ser recontratado. O PLC 20 determinou a criação de jornadas de 12 horas e de 40 horas, além da criação de mais de 5 mil cargos novos, com concurso eliminatório de 3 fases: prova eliminatória, cursinho de 4 meses onde o professor receberia apenas 75% do salário da jornada inicial de 20hs (R$681,99), sendo obrigado a desprender 4horas por dia por R$ 681,88 por mês. Após este “cursinho” o professor ainda seria obrigado a fazer uma prova para saber se estaria empregado ou não.
No ano passado estes projetos se tornaram leis que legalizaram ainda mais o processo de precarização e fragmentação. O objetivo é nos dividir para enfraquecer a luta de uma categoria tão significativa, sendo o maior sindicato da América Latina, com quase 240 mil professores espalhados pelo estado de SP, e tão importante para a juventude e a classe trabalhadora.
Para os temporários a situação é mais drástica com a implementação da “provinha”. E os professores que não conseguirem atribuir aula, mas passaram na provinha, têm a pseudo-estabilidade de 12hs garantidas, realizando outros trabalhos dentro da escola que não seja dar aula.
Serra tem a cara de pau de dizer que melhorou a educação, que os professores ganham mais e que tem 2 professores por sala de aula. Mentira! O que o governo avançou foi na precarização e no completo descaso com a nossa categoria. Hoje somos P, N, F, L e O, e se não lutarmos pela unidade entre todos os professores, amanhã muitos dos que se dedicaram anos à educação estarão desempregados.
Nosso salário está há 12 anos sem reajuste. Desde a LDB elaborada por FHC, somada a política atual de Lula e do governador José Serra, culminou na miséria escolar vivida cotidianamente por nós: superlotação das salas falta de funcionários e infra-estrutura, aprovação automática, imposição de materiais rasos...
O governo Serra cumpre bem esta cartilha: investiu em um material com conteúdo rebaixado, que visa aumentar o índice de aprovação nas escolas, sob o custo de emburrecer nossa juventude e engessar a atuação do professor em sala. O governo vem adiando sua obrigatoriedade, mas as novas levas de concursados já viram com ele na ponta da língua. O concurso para promoção tem o mesmo fim: que os professores absorvam este conteúdo e esta metodologia pobre paulatinamente. Não visa professores formados, com a autonomia didática e de cátedra e sim funcionários padrão “repetidores” da cartilha.
Nem salários separado de melhoria de condições de trabalho, nem melhoria das condições de trabalho separado de aumento salarial. As reivindicação de salário desligada de reivindicações por melhores condições de ensino se torna um facilitador das políticas que o governo quer implementar, sendo uma porta aberta para a precarização do ensino do professor.
Na busca de todas essas reivindicações, os professores do estado de SP vem realizando a três semanas as sextas-feiras, assembléias no vão do Masp e na frete do prédio da Secretaria da Educação e organizando passeatas pelo centro de São Paulo na busca de mostrar de uma forma legal e constitucional a sociedade os problemas que a educação em nosso estado vem enfrentando, e ao mesmo tempo convocar o secretário da educação Paulo Renato para negociar.A resposta que tivemos foi o silêncio do “digníssimo” secretário.
A imprensa também não agiu muito diferente. Deixou de dar visibilidade do movimento, distorceu os fatos levando à notícia de forma conturbada a sociedade, construindo uma imagem enfraquecida e negativa do movimento. Uma prova deste ocorrido fui anunciar no rádio e na televisão uma média de 5 mil pessoas nos movimentos sendo que os números superaram a margem de 50 mil professores.
Diante destes episódios, a assembléia desta semana, foi marcada para acontecer na frente do estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi), na busca de reafirmar todas as pautas já apontadas e fazer uma passeata até o Palácio dos Bandeirantes (sede do governo do Estado de São Paulo) na busca de tênar abrir negociação com o governador José Serra que na próxima semana renunciará para poder anunciar sua candidatura a presidência da República.
A assembléia ocorreu dentro da normalidade das semanas anteriores. Porém, metros depois da partida de nossa passeata, fomos surpreendidos por um cordão de isolamento de policiais militares seguido de um outro cordão da tropa de choque impedindo a manifestação de seguir a diante. Quando o contato entre policiais e manifestantes se deu, o caos foi inevitável. A polícia recebeu os professores e alunos com toda repressão possível, com tiros de bala de borracha, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo.
Eram “cães armados” contra professores professoras, estudantes menores de idade, idosos, professora gestante. Cidadão responsáveis pela educação que foram reprimidos com muita violência. A resposta veio com paus e pedras lançados pelos manifestantes, reação facilmente contida. Virou uma praça de guerra.
Professores feridos, outros passando mal. O resgate foi acionado.
O nosso governador mostrou bem como ele acredita que devem ser tratados os professores e alunos de nosso estado, e como deve agir contra os movimentos sociais.Quem esteve presente ontem saiu de lá com plena convicção quanto é inexistente a democracia no Brasil. A covardia, a intolerância, o desrespeito foram todas as armas despejadas em cima de quem ali esteve presente naquele momento.
É inadmissível um governante que militou na ditadura tenha a atitude repressora como à de ontem.
A imprensa que mais uma vez esteve presente, tendo todas as chances de desmascarar essas atrocidades, construiu mais uma vez uma outra versão; de sermos baderneiros, de que estamos desrespeitando o direito de ir e vir das pessoas, que somos um movimento de minorias, ou seja, divulga uma situação totalmente oposta da realidade, mais uma vez levando a opinião pública contra o movimento.
Apesar de toda a covardia ocorrida nesta manifestação, é importante frisar pontos positivos. Em primeiro lugar, o Movimento Estudantil esteve presente ativamente presente na manifestação apoiando nossa causa. Dava gosto de ver, os jovens estudantes vendo a causa como deles também, juntos dos professores engroçando fileiras na luta por uma melhor educação. Em segundo lugar, é que mesmo que a mídia distorça os fatos, teve que divulgar o conflito, afinal, confrontos dão audiência, e quem estiver em casa e viu a matéria pode perceber naquele momento apesar da construção feita peã reportagem, que a imagem mostrava um confronto de policiais fortemente armados contra professores.
A baixa maior foi a desatenção que mais uma vez o governador deu para o caso, afirmando que só negocia depois que os professores decretarem o fim da greve.
Além da luta continuar na próxima quarta-feira dia 31 de Março, dia em que José Serra renunciará seu mandato, com mais uma assembléia na Avenida Paulista.
É extremamente importante utilizarmos a arma que temos nas mãos de utilizarmos o nosso voto e não elegermos o “coveiro” da educação em São Paulo a presidência da República. Mesmo sabendo que os problemas da educação no Brasil são históricos, é importante frisar que nos últimos anos de governo PSDB, o processo de sucateamento da educação foi acelerado graças à proposta de política neoliberal.
“Podem enganar alguns por um tempo, mas não enganarão a todos o tempo todo.”



Marcelo Albino de Oliveira Junqueira Leite.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Na Contra-Mão Da MPB



Existe um crivo, uma imposição, quando se fala de música e cultura em nossa sociedade. Esse crivo é um tanto quanto falacioso, e se encontra sob a sigla MPB (Música Popular Brasileira). “(...) a MPB se tornou um produto estético capaz de atender ao paladar mais discriminativo da intelligentsia de hoje”.
Não é de hoje que essa relação de poder – se entendermos que existe uma supremacia cultural entre MPB e o que é realmente popular em termos musicais – tem sido alvo de sucessivas desconstruções. O cantor e compositor baiano Raul Seixas, em 1974 cantou o seguinte verso em clara resposta ao movimento tropicália:

Eu já lhe disse que eu não tenho nada a ver
Com a linha evolutiva da música popular brasileira
A única linha que eu conheço
É a linha de empinar uma certa bandeira

Hoje, o mesmo Raul Seixas faz parte desse aperitivo para paladares refinados. Isso porque, segundo muitos teóricos de mesa de bar, o período pós ditadura militar não oferece nada para uma manifestação politizada através da música.
No entanto, este fenômeno é acompanhado por um outro bem característico: a falência do instrumento. No Brasil, o funk carioca é talvez o maior exemplo desses dois fenômenos.
Longe de tentar formular aqui uma critica a esse ritmo musical, creio que é necessário entendê-lo como uma manifestação social. Logo, as criticas a essa manifestação ocultam os preconceitos que marcam ainda, de forma tão severa, a nossa sociedade desde a sua formação até os dias de hoje.
O funk, com sua batida eletrônica e sua letra direta, vem confrontar-se à velha moral católica e cristã... Oferece o grito de liberdade aos que vivem sob um regime de exclusão social. Essa primeira analise é sedutora, mas será podemos encontrar algo mais revirando esse apanhado teórico que já virou lugar comum? Qual a genealogia desse ideal de liberdade amoral? O discurso “funkeiro”, com sua bandeira de “violência” e “sexo sem compromisso” não faria parte da mesma rede histórica daquilo que denuncia e chama de repressão, ou seja, a moral católico-cristã que mantém o monopólio do sexo imaculado dentro das representações do casamento, e a violência policial, que tão facilmente podemos remontar ao tempo dos senhores coloniais.
Essas questões são inteiramente pertinentes para entendermos de forma mais abrangente o fenômeno funk, e reconhecermos as relações de poder quando tal assunto é abordado na mídia, nos apartamentos da classe média alta, ou nos barracos das comunidades mais pobres.

Referencias:
• Música e Democracia, José Paulo Paes in Cultura Brasileira – Temas e Situações; Alfredo Bosi (org.) 4ª Ed., 2003 – Editora Ática, São Paulo;
• História da Sexualidade I – A Vontade de Saber, Michel Foucault, 6ª Ed., 1985 – Editora Graal, Rio de Janeiro.


Adriano José.