sábado, 24 de abril de 2010

Pereira Passos do Século XXI.




No mês passado o Rio de Janeiro sofreu mais uma vez com as fortes chuvas, provocando deslizamento de terra na região metropolitana da cidade. Essa tragédia deixou um saldo de mais de 200 mortos, dezenas de feridos e milhares de desabrigados. O “corriqueirismo” com a qual essas tragédias vêm ocorrendo nos impede de utilizar o termo, “fomos surpreendidos com essa catástrofe”. Apesar das grandes proporções do estrago ocorrido nesta ocasião, e pela grande repercussão na mídia em todo país e em boa parte do mundo, todos estão cansados de saber que isso é algo que vem acontecendo já a muito tempo, a única diferença é que desta vez o estrago foi bem maior que todas as outras.
O efeito desta tragédia ultrapassou qualquer dado estatístico apresentado, principalmente se somarmos ai todo o trauma dos sobreviventes que perderam a família inteira, amigos, suas casas,danos que apesar de muito esforço, nenhum sensacionalismo televisivo conseguiu transpassar em toda sua amplitude e profundidade.
Mas o pior que apesar de todos esses ocorridos, tivemos que engolir a seco a declaração do governador e prefeito do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral e Eduardo Paes e o prefeito do Município de Niterói, o senhor Jorge Roberto Silveira, declarando a imprensa “a sete ventos” que a culpa de toda desgraça ocorrida era dos próprios moradores que insistem em viver nas áreas de risco. Ou seja, culpando o pobre de ser pobre no Rio de Janeiro.
Para entendermos o quanto foi estapafúrdia esta análise, é extremamente importante olhar um pouco para o passado do Rio de Janeiro, especificamente para o final do século XIX e começo do XX e reparar o quanto foram injustas essas palavras, detectando quantos aspectos de permanências há em relação a mentalidade do governo carioca atual com o do passado.
Para trabalhar este assunto é necessário remexer em algumas feridas que apesar de parecerem cicatrizadas insistem em sangrar. A formação e o crescimento das favelas nos morros do Rio de Janeiro.
Em primeiro lugar, é importante destacar um período marcante e “heróico” de nossa história, ocorrido em 1888, a Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel que decretava o fim da escravidão no Brasil (um dos últimos países do mundo a abandonar esse tipo de atividade).
Apesar de tardio, mas “muito honroso”, afinal de contas reconheceram o erro e ocasionaram "o acerto". Seria o que muitos diriam se resumissem os ocorridos, e durante muito tempo era essa versão que os livros contavam. Mas o que não importaram em se preocupar é que o simples fato de apenas abrir as portas das senzalas não seria o suficiente para dar aos ex-escravos a condição de cidadão. Que seria necessário desenvolver um plano de inclusão social garantindo emprego, moradia, alimentação, saúde... Dignidade. Mas como realizar um projeto deste cunho em uma sociedade que acreditava na inferioridade racial, num país em que ainda não era industrializado, o mercado interno ainda não era desenvolvido, que simplesmente os substituíram pela mão de obra de imigrantes europeus e que em um curto espaço de tempo lançou os negros na exclusão, marginalidade e na vadiagem compulsória?
As condições para o desenvolvimento de uma industrialização e do fortalecimento do mercado interno só aconteceu de forma enfática no começo da década de 1930 quando as tendências mundiais empurraram o Brasil a este rumo como solução para sair da dependência do café como principal agente movimentador de nossa economia. Mas o quadro que temos entre 1888-1929 é de um país agrário e ao mesmo tempo de uma capital (Rio de Janeiro), centro de toda esperança e expectativa de progresso no Brasil, o que atraía a todos os mais pobres de diversas regiões do país (ênfase a moradores da região do nordeste que viviam em condição de penumbra com a seca e dos ex-escravos das zonas cafeeiras do Vale do Paraíba e interior Paulista). Rio de Janeiro para essas pessoas significava esperança, mas a realidade encontrada foi à oposta, uma cidade saturada com o crescimento demográfico, fétida, suja, repleta de cortiços e com o centro da cidade desproporcional a importância que ela passou a ter à nível econômico sendo um dos principais pontos de importação e exportação do país.
Os cortiços, as ruelas, as mínimas condições de saneamento básico, com uma enorme população pobre, desempregada (no máximo com algum tipo de atividade informal que pouco garantia sua subsistência) foram se tornando um peso para uma cidade que precisava se modernizar e atrair investimentos para o país.
O trabalho do historiador Nicolau Sevcenko nos deixou bem claro que rumos a política do presidente Rodrigues Alves(1904-1908) e do prefeito Pereira Passos nomeado por ele, reservaram para uma “modernização a cima de tudo”. O avanço das obras que mudariam o perfil da cidade e que a transformariam numa “Paris tropical” custaria à expulsão da “escória pobre, suja e doente da cidade” deixando de denegrir a imagem da cidade.
Com suas portas arrombadas, tirados a força e logo em seguida demolindo-as no intuito de alongar avenidas trazendo o glamour europeu para a cidade e facilitar o tráfego dos produtos a serem exportados nos portos cariocas. O que restava a população carente era se refugiar nos morros ao redor da cidade e o visual das janelas de seus humildes lares visualizando a cidade do futuro e o sonho de um dia usufruírem de toda essa modernidade da qual decidiram por eles que não iriam pertencer.
Essa realidade vem sendo mantida e aprofundada de acordo com os passos dados pela política capitalista neoliberal, cada vez mais na sociedade aumentando o volume de concentração de riqueza para as minorias privilegiadas no decorrer de todo o século XX, a ponto dessa situação de pobreza e violência nos morros se consolidarem como cultura e de se tornar atração turística da cidade, “ajudando a movimentar a economia”.
De lá pra cá, de 4 em 4 anos os governos pouco tem agido para alterar os rumos desta política de descaso e de exclusão social.
Em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro a prefeitura vem sendo fiel a essa política. Não é a toa que o maior foco de mortes na última tragédia das chuvas ocorreu por lá.
O prefeito Jorge Roberto Silveira, do qual já esteve neste cargo por alguns mandatos ( 16 anos), tem feito muito pouco esforço em todo decorrer deste tempo para transformar essa realidade. Quem afirma que Niterói melhorou muito nos últimos anos provavelmente não conhece algumas regiões periféricas da cidade como: bairro do Fonseca, Cubango, Jurujuba... e outros que de 15 anos pra cá não mudaram praticamente nada.
Já não se pode dizer o mesmo de Icaraí, que por coincidência é o bairro onde reside o prefeito da cidade, num belíssimo apartamento em frente ao mar. Considerado um bairro que "cresce para cima", se tornou incontável a quantidade de prédios luxuosos que foram levantados nos últimos anos, sendo um dos pontos onde a classe média alta carioca anda indo se refugiar já à alguns anos.
Se analisarmos o crescimento de Niterói apenas por Icaraí, chegaremos a constatação de que descobrimos a "Manhattan carioca".
E não há dúvidas de que essa mesma alta classe média se sensibilizou com a Fátima Bernardes anunciando o caos em sua cidade direto do Morro do Bumba, mas ao mesmo tempo não haveria de ser nada que a novela das 8 e os barzinhos das sextas niteroenses amenizassem o impacto causado.
Os anos e décadas passam, os problemas se perpetuam. Estamos às vésperas de uma Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil, em particular, no Rio de Janeiro. Novamente estamos na busca da tal modernização da cidade. A história se repete comprovando a inexistência de sua linearidade e o desafio que nos é colocado agora é: erramos como 1904 ou buscamos outro rumo?
Sérgio Cabral, Eduardo Paes e Jorge Roberto Silveira estão respondendo essa pergunta com muita frieza, em plena fase de discussão sobre divisão dos Royalties do petróleo. O que podemos perceber até então é que em pleno século XXI o Rio de Janeiro volta a ter seu Pereira Passos.


Marcelo A. O. J. Leite.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Greve dos Professores no Estado de São Paulo



HÁ quatro semanas os professores da rede pública do Estado de São Paulo entraram em greve devido a uma série de ataques que o governo Serra vem fazendo a educação.
Nossa categoria é dividida entre efetivos e temporários (os últimos compõem 48%), ambos realizam o mesmo trabalho, mas os temporários não têm os mesmos direitos, são submetidos a contratos de um ano, e ainda por cima os que não conseguem atribuição de aula, os “eventuais”, são obrigados a tapar buraco nas escolas diante da ausência de professores, a dar aula de disciplinas que não foram habilitados para ministrar não tendo garantia de quanto receberão a cada mês.
Os professores efetivos também são submetidos a péssimas condições de trabalho e salários, chegando a ser um dos salários de professor estadual mais baixos do Brasil. Para completar a renda somos obrigados a ter longas jornadas, acumulando cargo ou nos dividindo entre duas, três escolas, gastando o pouco dinheiro que ganhamos com transporte e alimentação. Com salas superlotadas de até 50 alunos, somos obrigados a custear com nosso dinheiro, o material necessário para desenvolvermos uma aula de qualidade, sem contar nas doenças físicas e mentais que nos afligem pelo excesso de trabalho. Estas são as conseqüências de anos de ataques do governo estadual e lutas que foram derrotadas pela política da direção de nosso sindicato que permitiu que passassem os ataques e agora os naturaliza. A divisão da categoria é um produto dessas derrotas que sofremos todos. Por isso, a unidade de efetivos e temporários é uma condição para a vitória.
O recomeço dos ataques.
Há cerca de dois anos o governo Serra seguiu com a política de precarização. Primeiro, em 2008, com o decreto nº 53.037/08 com a implementação da avaliações do desempenho aos professores temporários, com o intuito de descarregar sobre as costas do professor a culpa pela péssima qualidade do ensino.
Em junho de 2009, mais ataques e precarização de todo o funcionalismo público de estado de São Paulo, com o PLC 19 e o PLC 20. O PLC 19, legalizando a forma de contratação temporária de qualquer categoria do funcionalismo público, com contrato no máximo de 12 meses e, depois desse tempo o funcionário seria demitido tendo de aguardar 200 dias para ser recontratado. O PLC 20 determinou a criação de jornadas de 12 horas e de 40 horas, além da criação de mais de 5 mil cargos novos, com concurso eliminatório de 3 fases: prova eliminatória, cursinho de 4 meses onde o professor receberia apenas 75% do salário da jornada inicial de 20hs (R$681,99), sendo obrigado a desprender 4horas por dia por R$ 681,88 por mês. Após este “cursinho” o professor ainda seria obrigado a fazer uma prova para saber se estaria empregado ou não.
No ano passado estes projetos se tornaram leis que legalizaram ainda mais o processo de precarização e fragmentação. O objetivo é nos dividir para enfraquecer a luta de uma categoria tão significativa, sendo o maior sindicato da América Latina, com quase 240 mil professores espalhados pelo estado de SP, e tão importante para a juventude e a classe trabalhadora.
Para os temporários a situação é mais drástica com a implementação da “provinha”. E os professores que não conseguirem atribuir aula, mas passaram na provinha, têm a pseudo-estabilidade de 12hs garantidas, realizando outros trabalhos dentro da escola que não seja dar aula.
Serra tem a cara de pau de dizer que melhorou a educação, que os professores ganham mais e que tem 2 professores por sala de aula. Mentira! O que o governo avançou foi na precarização e no completo descaso com a nossa categoria. Hoje somos P, N, F, L e O, e se não lutarmos pela unidade entre todos os professores, amanhã muitos dos que se dedicaram anos à educação estarão desempregados.
Nosso salário está há 12 anos sem reajuste. Desde a LDB elaborada por FHC, somada a política atual de Lula e do governador José Serra, culminou na miséria escolar vivida cotidianamente por nós: superlotação das salas falta de funcionários e infra-estrutura, aprovação automática, imposição de materiais rasos...
O governo Serra cumpre bem esta cartilha: investiu em um material com conteúdo rebaixado, que visa aumentar o índice de aprovação nas escolas, sob o custo de emburrecer nossa juventude e engessar a atuação do professor em sala. O governo vem adiando sua obrigatoriedade, mas as novas levas de concursados já viram com ele na ponta da língua. O concurso para promoção tem o mesmo fim: que os professores absorvam este conteúdo e esta metodologia pobre paulatinamente. Não visa professores formados, com a autonomia didática e de cátedra e sim funcionários padrão “repetidores” da cartilha.
Nem salários separado de melhoria de condições de trabalho, nem melhoria das condições de trabalho separado de aumento salarial. As reivindicação de salário desligada de reivindicações por melhores condições de ensino se torna um facilitador das políticas que o governo quer implementar, sendo uma porta aberta para a precarização do ensino do professor.
Na busca de todas essas reivindicações, os professores do estado de SP vem realizando a três semanas as sextas-feiras, assembléias no vão do Masp e na frete do prédio da Secretaria da Educação e organizando passeatas pelo centro de São Paulo na busca de mostrar de uma forma legal e constitucional a sociedade os problemas que a educação em nosso estado vem enfrentando, e ao mesmo tempo convocar o secretário da educação Paulo Renato para negociar.A resposta que tivemos foi o silêncio do “digníssimo” secretário.
A imprensa também não agiu muito diferente. Deixou de dar visibilidade do movimento, distorceu os fatos levando à notícia de forma conturbada a sociedade, construindo uma imagem enfraquecida e negativa do movimento. Uma prova deste ocorrido fui anunciar no rádio e na televisão uma média de 5 mil pessoas nos movimentos sendo que os números superaram a margem de 50 mil professores.
Diante destes episódios, a assembléia desta semana, foi marcada para acontecer na frente do estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi), na busca de reafirmar todas as pautas já apontadas e fazer uma passeata até o Palácio dos Bandeirantes (sede do governo do Estado de São Paulo) na busca de tênar abrir negociação com o governador José Serra que na próxima semana renunciará para poder anunciar sua candidatura a presidência da República.
A assembléia ocorreu dentro da normalidade das semanas anteriores. Porém, metros depois da partida de nossa passeata, fomos surpreendidos por um cordão de isolamento de policiais militares seguido de um outro cordão da tropa de choque impedindo a manifestação de seguir a diante. Quando o contato entre policiais e manifestantes se deu, o caos foi inevitável. A polícia recebeu os professores e alunos com toda repressão possível, com tiros de bala de borracha, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo.
Eram “cães armados” contra professores professoras, estudantes menores de idade, idosos, professora gestante. Cidadão responsáveis pela educação que foram reprimidos com muita violência. A resposta veio com paus e pedras lançados pelos manifestantes, reação facilmente contida. Virou uma praça de guerra.
Professores feridos, outros passando mal. O resgate foi acionado.
O nosso governador mostrou bem como ele acredita que devem ser tratados os professores e alunos de nosso estado, e como deve agir contra os movimentos sociais.Quem esteve presente ontem saiu de lá com plena convicção quanto é inexistente a democracia no Brasil. A covardia, a intolerância, o desrespeito foram todas as armas despejadas em cima de quem ali esteve presente naquele momento.
É inadmissível um governante que militou na ditadura tenha a atitude repressora como à de ontem.
A imprensa que mais uma vez esteve presente, tendo todas as chances de desmascarar essas atrocidades, construiu mais uma vez uma outra versão; de sermos baderneiros, de que estamos desrespeitando o direito de ir e vir das pessoas, que somos um movimento de minorias, ou seja, divulga uma situação totalmente oposta da realidade, mais uma vez levando a opinião pública contra o movimento.
Apesar de toda a covardia ocorrida nesta manifestação, é importante frisar pontos positivos. Em primeiro lugar, o Movimento Estudantil esteve presente ativamente presente na manifestação apoiando nossa causa. Dava gosto de ver, os jovens estudantes vendo a causa como deles também, juntos dos professores engroçando fileiras na luta por uma melhor educação. Em segundo lugar, é que mesmo que a mídia distorça os fatos, teve que divulgar o conflito, afinal, confrontos dão audiência, e quem estiver em casa e viu a matéria pode perceber naquele momento apesar da construção feita peã reportagem, que a imagem mostrava um confronto de policiais fortemente armados contra professores.
A baixa maior foi a desatenção que mais uma vez o governador deu para o caso, afirmando que só negocia depois que os professores decretarem o fim da greve.
Além da luta continuar na próxima quarta-feira dia 31 de Março, dia em que José Serra renunciará seu mandato, com mais uma assembléia na Avenida Paulista.
É extremamente importante utilizarmos a arma que temos nas mãos de utilizarmos o nosso voto e não elegermos o “coveiro” da educação em São Paulo a presidência da República. Mesmo sabendo que os problemas da educação no Brasil são históricos, é importante frisar que nos últimos anos de governo PSDB, o processo de sucateamento da educação foi acelerado graças à proposta de política neoliberal.
“Podem enganar alguns por um tempo, mas não enganarão a todos o tempo todo.”



Marcelo Albino de Oliveira Junqueira Leite.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Na Contra-Mão Da MPB



Existe um crivo, uma imposição, quando se fala de música e cultura em nossa sociedade. Esse crivo é um tanto quanto falacioso, e se encontra sob a sigla MPB (Música Popular Brasileira). “(...) a MPB se tornou um produto estético capaz de atender ao paladar mais discriminativo da intelligentsia de hoje”.
Não é de hoje que essa relação de poder – se entendermos que existe uma supremacia cultural entre MPB e o que é realmente popular em termos musicais – tem sido alvo de sucessivas desconstruções. O cantor e compositor baiano Raul Seixas, em 1974 cantou o seguinte verso em clara resposta ao movimento tropicália:

Eu já lhe disse que eu não tenho nada a ver
Com a linha evolutiva da música popular brasileira
A única linha que eu conheço
É a linha de empinar uma certa bandeira

Hoje, o mesmo Raul Seixas faz parte desse aperitivo para paladares refinados. Isso porque, segundo muitos teóricos de mesa de bar, o período pós ditadura militar não oferece nada para uma manifestação politizada através da música.
No entanto, este fenômeno é acompanhado por um outro bem característico: a falência do instrumento. No Brasil, o funk carioca é talvez o maior exemplo desses dois fenômenos.
Longe de tentar formular aqui uma critica a esse ritmo musical, creio que é necessário entendê-lo como uma manifestação social. Logo, as criticas a essa manifestação ocultam os preconceitos que marcam ainda, de forma tão severa, a nossa sociedade desde a sua formação até os dias de hoje.
O funk, com sua batida eletrônica e sua letra direta, vem confrontar-se à velha moral católica e cristã... Oferece o grito de liberdade aos que vivem sob um regime de exclusão social. Essa primeira analise é sedutora, mas será podemos encontrar algo mais revirando esse apanhado teórico que já virou lugar comum? Qual a genealogia desse ideal de liberdade amoral? O discurso “funkeiro”, com sua bandeira de “violência” e “sexo sem compromisso” não faria parte da mesma rede histórica daquilo que denuncia e chama de repressão, ou seja, a moral católico-cristã que mantém o monopólio do sexo imaculado dentro das representações do casamento, e a violência policial, que tão facilmente podemos remontar ao tempo dos senhores coloniais.
Essas questões são inteiramente pertinentes para entendermos de forma mais abrangente o fenômeno funk, e reconhecermos as relações de poder quando tal assunto é abordado na mídia, nos apartamentos da classe média alta, ou nos barracos das comunidades mais pobres.

Referencias:
• Música e Democracia, José Paulo Paes in Cultura Brasileira – Temas e Situações; Alfredo Bosi (org.) 4ª Ed., 2003 – Editora Ática, São Paulo;
• História da Sexualidade I – A Vontade de Saber, Michel Foucault, 6ª Ed., 1985 – Editora Graal, Rio de Janeiro.


Adriano José.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Link: Dicionário Político.

http://www2.uol.com.br/aprendiz/designsocial/agora/texto_dic.htm

Funk: Imoralidade ou Cultura?




A procura de entretenimento nas favelas, a juventude local, já ha um bom tempo vem aderindo aos bailes funks. Estilo musical que se metamorfoseou em relação as suas origens norte-americanas adquirindo toda uma peculiaridade no Brasil, especificamente na cidade do Rio de Janeiro.
O funk (conhecido também como o soul Funk ou funk de raiz) surge em meados de 1960 originárias dos guetos (bairros negros, regiões periféricas).
Esse estilo musical se desenvolveu através da mistura do soul music, soul jazz e rock psicodélico revelando artistas como James Brown, Marceo Parker e Melvin Parker.
Este mesmo funk vai despejar suas influências no Brasil, trazendo nomes como Tim Maia e Tony Tornado que seguem o modelo americano somado com as peculiaridades da música brasileira.
Na década de 1980 o funk no Brasil já se apresenta completamente desfigurado das suas origens, particularmente nas favelas cariocas. Local onde a população vive a margem da sociedade buscando formas de entretenimento totalmente peculiar e popular. Momento que explodem os grandes bailes funks no Rio de Janeiro.
Músicas repletas de mixagens, dançantes, e com letras que frisam as dificuldades vividas, exclusão social e o orgulho de pertencer àquela comunidade. Próximo a este fenômeno podemos apontar o Rap na cidade de São Paulo.
Os processos de transformação darão diversas fisionomias ao funk carioca, passando desde o funk melody ao funk apologético as drogas e da violência, o chamado e o funk Pornográfico, que vem se destacando nos últimos anos é o que nos debruçaremos a partir deste momento.
Com letras extremamente relacionadas ao ato sexual e tratada de uma forma totalmente desprovida de qualquer juízo de valor, colocando tanto o homem como a mulher apenas como objeto sexual, recheada de palavrões, tem sido já há algum tempo a grande distração dos ouvintes e frequentadores dos bailes ou simplesmente ganhando simpatizantes.
A verdade é que apesar das críticas e do incômodo percebido dentro da sociedade que classifica a modalidade musical como agressão a moralidade e a família, o “funk Pornográfico” vem rompendo fronteiras sociais, descendo das favelas e alcançando todos os pontos e cidades, ultrapassando divisas e superando velhas rixas regionais como a que existe entre o eixo Rio-São Paulo tomando as ruas a ponto de a ostensividade das letras alcançarem um grau de banalidade superando o conservadorismo, não pelas pessoas mais conservadoras aceitarem, mas por se acostumarem com as músicas.
E por que nos incomoda tanto essa ostensividade sexual?
Porque aprendemos nos meios sociais dos quais estamos inseridos a respeitar uma série de normas e condutas que se classificam dentro de um padrão de moralidade pré-concebidas, seja pela religiosidade ou pelo o próprio estado. Partindo dessa recíproca podemos enquadrar o funk pornográfico no Artigo IV do Código Penal que se caracteriza como atentado ao pudor. Ao mesmo tempo, podemos reparar que a mesma ala da sociedade conservadora que apedreja o funk passa os domingos colocando saia curta na filha pequena e pedindo para dançar que nem a dançarina do grupo de axé da televisão ou venerando a beleza nua das passistas das escolas de samba. Sem contar que a publicidade para vender certos produtos utiliza a imagem das mulheres seminuas para consolidar uma sociedade machista, deixando bem clara a posição de cada um dentro dela, independente do valor moral que essa mesma sociedade venha a ter e que já foi aceita como verdade. Nossa sociedade anda dividida entre conservadorismo e hipocrisia.
Mas se buscarmos polemizar o assunto e nos afastarmos de qualquer juízo de valor, não classificando a música como promíscua, safadeza, sem vergonha... Se tentarmos enxergar por outros ângulos e aprofundar um pouco mais a problemática e entendermos por que o sexo ganhou tanta ênfase nos funks, chegaremos à conclusão de que o ser humano como qualquer animal possui instinto sexual. O homem por ser caracterizado como ser racional diferentemente dos outros animais, acaba sendo imposta a condição de controlá-los.
E qual a busca destes instintos sexuais dos seres?
Para responder esta pergunta, podemos apelar para um filósofo do século XIX, o Alemão Arthur Shopenhauer que defende a teoria de que tanto o homem quanto a mulher apesar de se interessarem um pelo outro por uma série de motivos ou afeições externas, a causa intrínseca e inconsciente destes motivos e afeições é única, a perpetuação da espécie, o inconsciente trabalha como uma motivação oculta na busca de um dia obter herdeiros saudáveis. O funk, o baile, o rompimento da moralidade é apenas um sinal do qual o instinto se apropria da arte para concretizar a satisfação da procura deste animal racional.
A questão é que diante deste quadro podemos perceber a música, independentemente do que ela venha a tratar, sendo uma forma de arte que pode romper com as estruturas e diminuindo diferenças e talvez até desconstruindo velhos valores ou simplesmente fortalecendo esses velhos valores ainda mais. E se cremos que a arte é a uma matéria prima cultural e que a cultura se transforma de acordo com a sociedade e vice-versa, uma transformando a outra, podemos afirmar satisfeitos ou não que violento, romântico, proibido ou não o funk carioca é cultura.


Marcelo Albino de Oliveira Junqueira Leite.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

"Ajuda humanitária converteu-se em projeto de poder".


Por trás do sincero discurso de ajuda as vítimas da tragédia haitiana, há um jogo de interesses nacionais cada vez mais explícito, afirma ao Estado de São Paulo o professor de relações internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser. Foi assim na ajuda aos países afetados pelo tsunami de 2004 ou pelo furacão Mitch,de 1998. "Com ajuda humanitária, vem o direcionamento político", argumenta.
A tragédia no Haiti desencadeou uma avalanche de ajuda humanitária de vários países. Certamente há uma preocupação real com o povo haitiano. Mas quais são suas implicações geográficas?
Tem crescido muito o número de estudos sobre a relação entre ajuda humanitária e interesse nacional. Em casos como o Haiti existe um sentimento solidário, do qual as pessoas são tomadas - e Estados dão vazão a ele. Trata-se de um fenômeno antigo. A novidade é que, com o fim da Guerra Fria, o volume de ajuda cresceu exponencialmente. O Banco Mundial, por exemplo, aumentou em 80% o envio de recursos sob rúbrica "ajuda humanitária" desde o início dos anos 90. Hoje o mesmo tema é responsável por 30% do orçamento do Pentágono. A ajuda humanitária transformou-se em um projeto político.
Há exemplos concretos sobre essa projeção de poder?
Um exemplo é o tsunami de 2004. Logo depois da tragédia, os EUA enviaram tropas de ajuda ao leste da Ásia, sabendo que o Congresso americano vetava a cooperação militar com a Indonésia por causa da herança da ditadura de Suharto. Sob o argumento de ação humanitária, houve uma proximação militar e ao final, a Casa Branca reverteu o bloqueio do Legislativo. Também com esse tsunami, houve uma aproximação de Washington com o Sri Lanka, que tentava exterminar a guerrilha tâmil. Enfim, por causa do tsunami, os EUA fizeram um grande investimento militar na região
Imagino que esa reaproximação não se limite à dimensão militar.
Há um aspécto econômico fundamental. Quando houve o furacão Mitch na América Central, em 1998, o Banco Mundial e o FMI ofereceram ajuda significativa, mas condicionaram o envio as reformas econômicas. Honduras foi pressionada a privatizar seus portos, aeroportos e sistemas de comunicação. Na ajuda configurou-se um direcionamento do rumo de política econômica que o país devia tomar.
Os EUA parecem ter visto na tragédia do Haiti uma chance de reforçar a imagem de "potência benevolente".
Sem dúvida, mas isso sempre existiu. Os EUA têm um sentimento missionário, o velho discurso de estender a mão aos povos independentemente de fronteiras. Mas isso ocorria também na Guerra Fria. Na tragédia, americanos são os primeiros a se manifestar.
Por que?
Por duas razões: além da ideológica, os EUA são a única potência com meios para agir de imediato. Washington tem bases, soldados, navios e aviões no mundo todo. É interessante também notar que a guerra tornou-se a mesma que para a ajuda humanitária. Há uma militarização da ajuda humanitária.

Roberto Simon.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Pensando Maquiavel Como Vanguarda Na História.




Nicolau Maquiavel nasceu em 3 de Maio de 1469 na cidade de Florença.. Em sua adolescência demonstrava um excelente nível intelectual. Mas apenas aos 29 anos exerce seu primeiro cargo público na vida na Segunda Chancelaria de Florença.
O que o destacava como grande personagem renascentista, era o profundo distanciamento da escolástica medieval onde nega crer no fenômeno histórico cristão, segundo o qual, o desenrolar dos fatos humanos no tempo cumpre desígnios divinos dirigindo-se linearmente ao juízo final.
Bem antes de Giambatista Vico (XVII) se opor a Descartes em relação à inutilidade do estudo da história e de enxergá-la “cíclica” ( Corsi e Ricorsi) e de Nietzsche (XIX) desenvolver a Teoria do Eterno Retorno, Maquiavel já acreditava na investigação empírica que consistia na busca da prática dos fenômenos do poder , não de forma em que se encontrasse o tipo de Estado ideal, mas por entender como as organizações políticas se fundem, se desenvolvem, persistem e caem , ou seja, busca no passado ciclos históricos de governos, revoluções bem ou mal sucedidos, onde acertavam e onde erravam em sua decisões, na busca de entender a suas projeções históricas.
Todo esse estudo desenvolvido, somado com a sua experiência na vida pública o levara a conclusão de que os homens seriam todos egoístas e ambiciosos, só recuando da prática do mal quando coagidos pela força da lei. Para Maquiavel, a arte de saber governar triunfaria sobre a ação humana e a teoria da história.
Apesar de sua grande contribuição ao estudo da história, seu trabalho só ganhou notoriedade depois de seu falecimento em 1527 e não no desenvolvimento do estudo histórico, mas na forma de governar. Influenciou muitos reis no sentido da prática de forma de articulação nos governos, como Henrique VIII na Inglaterra.
“O fim justifica os meios”.
“É melhor ser amado ou odiado?”.
“A importância de um exército local para garantir a ordem de um bom governo”.
”A Importância de ter um povo religioso”.
Muitos desses pontos trabalhados por Maquiavel levou nomes do pensamento dos séculos seguintes a diversas conclusões:
Diderot (XVIII), “Dentro da problemática republicana, acredito que “O Príncipe” é uma sátira entendida como elogio”.
Rousseau (XVIII), “Maquiavel teria sido obrigado pelas circunstâncias a disfarçar o amor a liberdade, simulando dar lições aos reis, quando na verdade as dava ao povo”.
Voltaire (XVIII) associava Maquiavel em rejeição radical ao amoralismo em política.
Há também discrepâncias nas interpretações, como a de Mussolini (XX) que dizia que Maquiavel teria sido precursor do Fascismo e Gramsci que associava Maquiavel ao partido proletário.
Em nível de Brasil, acredito que não haja nada mais atual em seu pensamento que a seguinte frase:
“Se for fazer algo de ruim ao povo, faça-o de uma vez, pois o povo tem memória curta e logo esquecerá, mas se fizer algo benéfico, que seja aos poucos para que seu nome seja lembrado por toda eternidade”.
Se nossos representantes políticos são todos leitores de Maquiavél , creio que seja algo complicado de se afirmar, mas que no campo da prática é perceptível que algo ficou de herança. A vida por si só nos dará esta resposta.


Marcelo Albino de Oliveira Junqueira Leite.