quarta-feira, 31 de março de 2010

Greve dos Professores no Estado de São Paulo



HÁ quatro semanas os professores da rede pública do Estado de São Paulo entraram em greve devido a uma série de ataques que o governo Serra vem fazendo a educação.
Nossa categoria é dividida entre efetivos e temporários (os últimos compõem 48%), ambos realizam o mesmo trabalho, mas os temporários não têm os mesmos direitos, são submetidos a contratos de um ano, e ainda por cima os que não conseguem atribuição de aula, os “eventuais”, são obrigados a tapar buraco nas escolas diante da ausência de professores, a dar aula de disciplinas que não foram habilitados para ministrar não tendo garantia de quanto receberão a cada mês.
Os professores efetivos também são submetidos a péssimas condições de trabalho e salários, chegando a ser um dos salários de professor estadual mais baixos do Brasil. Para completar a renda somos obrigados a ter longas jornadas, acumulando cargo ou nos dividindo entre duas, três escolas, gastando o pouco dinheiro que ganhamos com transporte e alimentação. Com salas superlotadas de até 50 alunos, somos obrigados a custear com nosso dinheiro, o material necessário para desenvolvermos uma aula de qualidade, sem contar nas doenças físicas e mentais que nos afligem pelo excesso de trabalho. Estas são as conseqüências de anos de ataques do governo estadual e lutas que foram derrotadas pela política da direção de nosso sindicato que permitiu que passassem os ataques e agora os naturaliza. A divisão da categoria é um produto dessas derrotas que sofremos todos. Por isso, a unidade de efetivos e temporários é uma condição para a vitória.
O recomeço dos ataques.
Há cerca de dois anos o governo Serra seguiu com a política de precarização. Primeiro, em 2008, com o decreto nº 53.037/08 com a implementação da avaliações do desempenho aos professores temporários, com o intuito de descarregar sobre as costas do professor a culpa pela péssima qualidade do ensino.
Em junho de 2009, mais ataques e precarização de todo o funcionalismo público de estado de São Paulo, com o PLC 19 e o PLC 20. O PLC 19, legalizando a forma de contratação temporária de qualquer categoria do funcionalismo público, com contrato no máximo de 12 meses e, depois desse tempo o funcionário seria demitido tendo de aguardar 200 dias para ser recontratado. O PLC 20 determinou a criação de jornadas de 12 horas e de 40 horas, além da criação de mais de 5 mil cargos novos, com concurso eliminatório de 3 fases: prova eliminatória, cursinho de 4 meses onde o professor receberia apenas 75% do salário da jornada inicial de 20hs (R$681,99), sendo obrigado a desprender 4horas por dia por R$ 681,88 por mês. Após este “cursinho” o professor ainda seria obrigado a fazer uma prova para saber se estaria empregado ou não.
No ano passado estes projetos se tornaram leis que legalizaram ainda mais o processo de precarização e fragmentação. O objetivo é nos dividir para enfraquecer a luta de uma categoria tão significativa, sendo o maior sindicato da América Latina, com quase 240 mil professores espalhados pelo estado de SP, e tão importante para a juventude e a classe trabalhadora.
Para os temporários a situação é mais drástica com a implementação da “provinha”. E os professores que não conseguirem atribuir aula, mas passaram na provinha, têm a pseudo-estabilidade de 12hs garantidas, realizando outros trabalhos dentro da escola que não seja dar aula.
Serra tem a cara de pau de dizer que melhorou a educação, que os professores ganham mais e que tem 2 professores por sala de aula. Mentira! O que o governo avançou foi na precarização e no completo descaso com a nossa categoria. Hoje somos P, N, F, L e O, e se não lutarmos pela unidade entre todos os professores, amanhã muitos dos que se dedicaram anos à educação estarão desempregados.
Nosso salário está há 12 anos sem reajuste. Desde a LDB elaborada por FHC, somada a política atual de Lula e do governador José Serra, culminou na miséria escolar vivida cotidianamente por nós: superlotação das salas falta de funcionários e infra-estrutura, aprovação automática, imposição de materiais rasos...
O governo Serra cumpre bem esta cartilha: investiu em um material com conteúdo rebaixado, que visa aumentar o índice de aprovação nas escolas, sob o custo de emburrecer nossa juventude e engessar a atuação do professor em sala. O governo vem adiando sua obrigatoriedade, mas as novas levas de concursados já viram com ele na ponta da língua. O concurso para promoção tem o mesmo fim: que os professores absorvam este conteúdo e esta metodologia pobre paulatinamente. Não visa professores formados, com a autonomia didática e de cátedra e sim funcionários padrão “repetidores” da cartilha.
Nem salários separado de melhoria de condições de trabalho, nem melhoria das condições de trabalho separado de aumento salarial. As reivindicação de salário desligada de reivindicações por melhores condições de ensino se torna um facilitador das políticas que o governo quer implementar, sendo uma porta aberta para a precarização do ensino do professor.
Na busca de todas essas reivindicações, os professores do estado de SP vem realizando a três semanas as sextas-feiras, assembléias no vão do Masp e na frete do prédio da Secretaria da Educação e organizando passeatas pelo centro de São Paulo na busca de mostrar de uma forma legal e constitucional a sociedade os problemas que a educação em nosso estado vem enfrentando, e ao mesmo tempo convocar o secretário da educação Paulo Renato para negociar.A resposta que tivemos foi o silêncio do “digníssimo” secretário.
A imprensa também não agiu muito diferente. Deixou de dar visibilidade do movimento, distorceu os fatos levando à notícia de forma conturbada a sociedade, construindo uma imagem enfraquecida e negativa do movimento. Uma prova deste ocorrido fui anunciar no rádio e na televisão uma média de 5 mil pessoas nos movimentos sendo que os números superaram a margem de 50 mil professores.
Diante destes episódios, a assembléia desta semana, foi marcada para acontecer na frente do estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi), na busca de reafirmar todas as pautas já apontadas e fazer uma passeata até o Palácio dos Bandeirantes (sede do governo do Estado de São Paulo) na busca de tênar abrir negociação com o governador José Serra que na próxima semana renunciará para poder anunciar sua candidatura a presidência da República.
A assembléia ocorreu dentro da normalidade das semanas anteriores. Porém, metros depois da partida de nossa passeata, fomos surpreendidos por um cordão de isolamento de policiais militares seguido de um outro cordão da tropa de choque impedindo a manifestação de seguir a diante. Quando o contato entre policiais e manifestantes se deu, o caos foi inevitável. A polícia recebeu os professores e alunos com toda repressão possível, com tiros de bala de borracha, bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo.
Eram “cães armados” contra professores professoras, estudantes menores de idade, idosos, professora gestante. Cidadão responsáveis pela educação que foram reprimidos com muita violência. A resposta veio com paus e pedras lançados pelos manifestantes, reação facilmente contida. Virou uma praça de guerra.
Professores feridos, outros passando mal. O resgate foi acionado.
O nosso governador mostrou bem como ele acredita que devem ser tratados os professores e alunos de nosso estado, e como deve agir contra os movimentos sociais.Quem esteve presente ontem saiu de lá com plena convicção quanto é inexistente a democracia no Brasil. A covardia, a intolerância, o desrespeito foram todas as armas despejadas em cima de quem ali esteve presente naquele momento.
É inadmissível um governante que militou na ditadura tenha a atitude repressora como à de ontem.
A imprensa que mais uma vez esteve presente, tendo todas as chances de desmascarar essas atrocidades, construiu mais uma vez uma outra versão; de sermos baderneiros, de que estamos desrespeitando o direito de ir e vir das pessoas, que somos um movimento de minorias, ou seja, divulga uma situação totalmente oposta da realidade, mais uma vez levando a opinião pública contra o movimento.
Apesar de toda a covardia ocorrida nesta manifestação, é importante frisar pontos positivos. Em primeiro lugar, o Movimento Estudantil esteve presente ativamente presente na manifestação apoiando nossa causa. Dava gosto de ver, os jovens estudantes vendo a causa como deles também, juntos dos professores engroçando fileiras na luta por uma melhor educação. Em segundo lugar, é que mesmo que a mídia distorça os fatos, teve que divulgar o conflito, afinal, confrontos dão audiência, e quem estiver em casa e viu a matéria pode perceber naquele momento apesar da construção feita peã reportagem, que a imagem mostrava um confronto de policiais fortemente armados contra professores.
A baixa maior foi a desatenção que mais uma vez o governador deu para o caso, afirmando que só negocia depois que os professores decretarem o fim da greve.
Além da luta continuar na próxima quarta-feira dia 31 de Março, dia em que José Serra renunciará seu mandato, com mais uma assembléia na Avenida Paulista.
É extremamente importante utilizarmos a arma que temos nas mãos de utilizarmos o nosso voto e não elegermos o “coveiro” da educação em São Paulo a presidência da República. Mesmo sabendo que os problemas da educação no Brasil são históricos, é importante frisar que nos últimos anos de governo PSDB, o processo de sucateamento da educação foi acelerado graças à proposta de política neoliberal.
“Podem enganar alguns por um tempo, mas não enganarão a todos o tempo todo.”



Marcelo Albino de Oliveira Junqueira Leite.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Na Contra-Mão Da MPB



Existe um crivo, uma imposição, quando se fala de música e cultura em nossa sociedade. Esse crivo é um tanto quanto falacioso, e se encontra sob a sigla MPB (Música Popular Brasileira). “(...) a MPB se tornou um produto estético capaz de atender ao paladar mais discriminativo da intelligentsia de hoje”.
Não é de hoje que essa relação de poder – se entendermos que existe uma supremacia cultural entre MPB e o que é realmente popular em termos musicais – tem sido alvo de sucessivas desconstruções. O cantor e compositor baiano Raul Seixas, em 1974 cantou o seguinte verso em clara resposta ao movimento tropicália:

Eu já lhe disse que eu não tenho nada a ver
Com a linha evolutiva da música popular brasileira
A única linha que eu conheço
É a linha de empinar uma certa bandeira

Hoje, o mesmo Raul Seixas faz parte desse aperitivo para paladares refinados. Isso porque, segundo muitos teóricos de mesa de bar, o período pós ditadura militar não oferece nada para uma manifestação politizada através da música.
No entanto, este fenômeno é acompanhado por um outro bem característico: a falência do instrumento. No Brasil, o funk carioca é talvez o maior exemplo desses dois fenômenos.
Longe de tentar formular aqui uma critica a esse ritmo musical, creio que é necessário entendê-lo como uma manifestação social. Logo, as criticas a essa manifestação ocultam os preconceitos que marcam ainda, de forma tão severa, a nossa sociedade desde a sua formação até os dias de hoje.
O funk, com sua batida eletrônica e sua letra direta, vem confrontar-se à velha moral católica e cristã... Oferece o grito de liberdade aos que vivem sob um regime de exclusão social. Essa primeira analise é sedutora, mas será podemos encontrar algo mais revirando esse apanhado teórico que já virou lugar comum? Qual a genealogia desse ideal de liberdade amoral? O discurso “funkeiro”, com sua bandeira de “violência” e “sexo sem compromisso” não faria parte da mesma rede histórica daquilo que denuncia e chama de repressão, ou seja, a moral católico-cristã que mantém o monopólio do sexo imaculado dentro das representações do casamento, e a violência policial, que tão facilmente podemos remontar ao tempo dos senhores coloniais.
Essas questões são inteiramente pertinentes para entendermos de forma mais abrangente o fenômeno funk, e reconhecermos as relações de poder quando tal assunto é abordado na mídia, nos apartamentos da classe média alta, ou nos barracos das comunidades mais pobres.

Referencias:
• Música e Democracia, José Paulo Paes in Cultura Brasileira – Temas e Situações; Alfredo Bosi (org.) 4ª Ed., 2003 – Editora Ática, São Paulo;
• História da Sexualidade I – A Vontade de Saber, Michel Foucault, 6ª Ed., 1985 – Editora Graal, Rio de Janeiro.


Adriano José.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Link: Dicionário Político.

http://www2.uol.com.br/aprendiz/designsocial/agora/texto_dic.htm

Funk: Imoralidade ou Cultura?




A procura de entretenimento nas favelas, a juventude local, já ha um bom tempo vem aderindo aos bailes funks. Estilo musical que se metamorfoseou em relação as suas origens norte-americanas adquirindo toda uma peculiaridade no Brasil, especificamente na cidade do Rio de Janeiro.
O funk (conhecido também como o soul Funk ou funk de raiz) surge em meados de 1960 originárias dos guetos (bairros negros, regiões periféricas).
Esse estilo musical se desenvolveu através da mistura do soul music, soul jazz e rock psicodélico revelando artistas como James Brown, Marceo Parker e Melvin Parker.
Este mesmo funk vai despejar suas influências no Brasil, trazendo nomes como Tim Maia e Tony Tornado que seguem o modelo americano somado com as peculiaridades da música brasileira.
Na década de 1980 o funk no Brasil já se apresenta completamente desfigurado das suas origens, particularmente nas favelas cariocas. Local onde a população vive a margem da sociedade buscando formas de entretenimento totalmente peculiar e popular. Momento que explodem os grandes bailes funks no Rio de Janeiro.
Músicas repletas de mixagens, dançantes, e com letras que frisam as dificuldades vividas, exclusão social e o orgulho de pertencer àquela comunidade. Próximo a este fenômeno podemos apontar o Rap na cidade de São Paulo.
Os processos de transformação darão diversas fisionomias ao funk carioca, passando desde o funk melody ao funk apologético as drogas e da violência, o chamado e o funk Pornográfico, que vem se destacando nos últimos anos é o que nos debruçaremos a partir deste momento.
Com letras extremamente relacionadas ao ato sexual e tratada de uma forma totalmente desprovida de qualquer juízo de valor, colocando tanto o homem como a mulher apenas como objeto sexual, recheada de palavrões, tem sido já há algum tempo a grande distração dos ouvintes e frequentadores dos bailes ou simplesmente ganhando simpatizantes.
A verdade é que apesar das críticas e do incômodo percebido dentro da sociedade que classifica a modalidade musical como agressão a moralidade e a família, o “funk Pornográfico” vem rompendo fronteiras sociais, descendo das favelas e alcançando todos os pontos e cidades, ultrapassando divisas e superando velhas rixas regionais como a que existe entre o eixo Rio-São Paulo tomando as ruas a ponto de a ostensividade das letras alcançarem um grau de banalidade superando o conservadorismo, não pelas pessoas mais conservadoras aceitarem, mas por se acostumarem com as músicas.
E por que nos incomoda tanto essa ostensividade sexual?
Porque aprendemos nos meios sociais dos quais estamos inseridos a respeitar uma série de normas e condutas que se classificam dentro de um padrão de moralidade pré-concebidas, seja pela religiosidade ou pelo o próprio estado. Partindo dessa recíproca podemos enquadrar o funk pornográfico no Artigo IV do Código Penal que se caracteriza como atentado ao pudor. Ao mesmo tempo, podemos reparar que a mesma ala da sociedade conservadora que apedreja o funk passa os domingos colocando saia curta na filha pequena e pedindo para dançar que nem a dançarina do grupo de axé da televisão ou venerando a beleza nua das passistas das escolas de samba. Sem contar que a publicidade para vender certos produtos utiliza a imagem das mulheres seminuas para consolidar uma sociedade machista, deixando bem clara a posição de cada um dentro dela, independente do valor moral que essa mesma sociedade venha a ter e que já foi aceita como verdade. Nossa sociedade anda dividida entre conservadorismo e hipocrisia.
Mas se buscarmos polemizar o assunto e nos afastarmos de qualquer juízo de valor, não classificando a música como promíscua, safadeza, sem vergonha... Se tentarmos enxergar por outros ângulos e aprofundar um pouco mais a problemática e entendermos por que o sexo ganhou tanta ênfase nos funks, chegaremos à conclusão de que o ser humano como qualquer animal possui instinto sexual. O homem por ser caracterizado como ser racional diferentemente dos outros animais, acaba sendo imposta a condição de controlá-los.
E qual a busca destes instintos sexuais dos seres?
Para responder esta pergunta, podemos apelar para um filósofo do século XIX, o Alemão Arthur Shopenhauer que defende a teoria de que tanto o homem quanto a mulher apesar de se interessarem um pelo outro por uma série de motivos ou afeições externas, a causa intrínseca e inconsciente destes motivos e afeições é única, a perpetuação da espécie, o inconsciente trabalha como uma motivação oculta na busca de um dia obter herdeiros saudáveis. O funk, o baile, o rompimento da moralidade é apenas um sinal do qual o instinto se apropria da arte para concretizar a satisfação da procura deste animal racional.
A questão é que diante deste quadro podemos perceber a música, independentemente do que ela venha a tratar, sendo uma forma de arte que pode romper com as estruturas e diminuindo diferenças e talvez até desconstruindo velhos valores ou simplesmente fortalecendo esses velhos valores ainda mais. E se cremos que a arte é a uma matéria prima cultural e que a cultura se transforma de acordo com a sociedade e vice-versa, uma transformando a outra, podemos afirmar satisfeitos ou não que violento, romântico, proibido ou não o funk carioca é cultura.


Marcelo Albino de Oliveira Junqueira Leite.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

"Ajuda humanitária converteu-se em projeto de poder".


Por trás do sincero discurso de ajuda as vítimas da tragédia haitiana, há um jogo de interesses nacionais cada vez mais explícito, afirma ao Estado de São Paulo o professor de relações internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser. Foi assim na ajuda aos países afetados pelo tsunami de 2004 ou pelo furacão Mitch,de 1998. "Com ajuda humanitária, vem o direcionamento político", argumenta.
A tragédia no Haiti desencadeou uma avalanche de ajuda humanitária de vários países. Certamente há uma preocupação real com o povo haitiano. Mas quais são suas implicações geográficas?
Tem crescido muito o número de estudos sobre a relação entre ajuda humanitária e interesse nacional. Em casos como o Haiti existe um sentimento solidário, do qual as pessoas são tomadas - e Estados dão vazão a ele. Trata-se de um fenômeno antigo. A novidade é que, com o fim da Guerra Fria, o volume de ajuda cresceu exponencialmente. O Banco Mundial, por exemplo, aumentou em 80% o envio de recursos sob rúbrica "ajuda humanitária" desde o início dos anos 90. Hoje o mesmo tema é responsável por 30% do orçamento do Pentágono. A ajuda humanitária transformou-se em um projeto político.
Há exemplos concretos sobre essa projeção de poder?
Um exemplo é o tsunami de 2004. Logo depois da tragédia, os EUA enviaram tropas de ajuda ao leste da Ásia, sabendo que o Congresso americano vetava a cooperação militar com a Indonésia por causa da herança da ditadura de Suharto. Sob o argumento de ação humanitária, houve uma proximação militar e ao final, a Casa Branca reverteu o bloqueio do Legislativo. Também com esse tsunami, houve uma aproximação de Washington com o Sri Lanka, que tentava exterminar a guerrilha tâmil. Enfim, por causa do tsunami, os EUA fizeram um grande investimento militar na região
Imagino que esa reaproximação não se limite à dimensão militar.
Há um aspécto econômico fundamental. Quando houve o furacão Mitch na América Central, em 1998, o Banco Mundial e o FMI ofereceram ajuda significativa, mas condicionaram o envio as reformas econômicas. Honduras foi pressionada a privatizar seus portos, aeroportos e sistemas de comunicação. Na ajuda configurou-se um direcionamento do rumo de política econômica que o país devia tomar.
Os EUA parecem ter visto na tragédia do Haiti uma chance de reforçar a imagem de "potência benevolente".
Sem dúvida, mas isso sempre existiu. Os EUA têm um sentimento missionário, o velho discurso de estender a mão aos povos independentemente de fronteiras. Mas isso ocorria também na Guerra Fria. Na tragédia, americanos são os primeiros a se manifestar.
Por que?
Por duas razões: além da ideológica, os EUA são a única potência com meios para agir de imediato. Washington tem bases, soldados, navios e aviões no mundo todo. É interessante também notar que a guerra tornou-se a mesma que para a ajuda humanitária. Há uma militarização da ajuda humanitária.

Roberto Simon.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Pensando Maquiavel Como Vanguarda Na História.




Nicolau Maquiavel nasceu em 3 de Maio de 1469 na cidade de Florença.. Em sua adolescência demonstrava um excelente nível intelectual. Mas apenas aos 29 anos exerce seu primeiro cargo público na vida na Segunda Chancelaria de Florença.
O que o destacava como grande personagem renascentista, era o profundo distanciamento da escolástica medieval onde nega crer no fenômeno histórico cristão, segundo o qual, o desenrolar dos fatos humanos no tempo cumpre desígnios divinos dirigindo-se linearmente ao juízo final.
Bem antes de Giambatista Vico (XVII) se opor a Descartes em relação à inutilidade do estudo da história e de enxergá-la “cíclica” ( Corsi e Ricorsi) e de Nietzsche (XIX) desenvolver a Teoria do Eterno Retorno, Maquiavel já acreditava na investigação empírica que consistia na busca da prática dos fenômenos do poder , não de forma em que se encontrasse o tipo de Estado ideal, mas por entender como as organizações políticas se fundem, se desenvolvem, persistem e caem , ou seja, busca no passado ciclos históricos de governos, revoluções bem ou mal sucedidos, onde acertavam e onde erravam em sua decisões, na busca de entender a suas projeções históricas.
Todo esse estudo desenvolvido, somado com a sua experiência na vida pública o levara a conclusão de que os homens seriam todos egoístas e ambiciosos, só recuando da prática do mal quando coagidos pela força da lei. Para Maquiavel, a arte de saber governar triunfaria sobre a ação humana e a teoria da história.
Apesar de sua grande contribuição ao estudo da história, seu trabalho só ganhou notoriedade depois de seu falecimento em 1527 e não no desenvolvimento do estudo histórico, mas na forma de governar. Influenciou muitos reis no sentido da prática de forma de articulação nos governos, como Henrique VIII na Inglaterra.
“O fim justifica os meios”.
“É melhor ser amado ou odiado?”.
“A importância de um exército local para garantir a ordem de um bom governo”.
”A Importância de ter um povo religioso”.
Muitos desses pontos trabalhados por Maquiavel levou nomes do pensamento dos séculos seguintes a diversas conclusões:
Diderot (XVIII), “Dentro da problemática republicana, acredito que “O Príncipe” é uma sátira entendida como elogio”.
Rousseau (XVIII), “Maquiavel teria sido obrigado pelas circunstâncias a disfarçar o amor a liberdade, simulando dar lições aos reis, quando na verdade as dava ao povo”.
Voltaire (XVIII) associava Maquiavel em rejeição radical ao amoralismo em política.
Há também discrepâncias nas interpretações, como a de Mussolini (XX) que dizia que Maquiavel teria sido precursor do Fascismo e Gramsci que associava Maquiavel ao partido proletário.
Em nível de Brasil, acredito que não haja nada mais atual em seu pensamento que a seguinte frase:
“Se for fazer algo de ruim ao povo, faça-o de uma vez, pois o povo tem memória curta e logo esquecerá, mas se fizer algo benéfico, que seja aos poucos para que seu nome seja lembrado por toda eternidade”.
Se nossos representantes políticos são todos leitores de Maquiavél , creio que seja algo complicado de se afirmar, mas que no campo da prática é perceptível que algo ficou de herança. A vida por si só nos dará esta resposta.


Marcelo Albino de Oliveira Junqueira Leite.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

As Dinâmicas Capitalistas Através das Indústrias Cosméticas e Farmacêuticas.




Ao desenvolver a Teoria Crítica, Karl Marx (1818-1883) repara inicialmente que se entendermos a dinâmica de funcionamento do mercado financeiro, automaticamente entenderíamos a cultura, religiosidade... Valores de uma determinada sociedade que vive sobre seus moldes.
Levando em consideração esta análise, procurarei destacar neste texto, duas áreas que se enquadram neste processo percebido por Marx, a indústria cosmética e a indústria farmacêutica.
Devido à própria dinâmica capitalista, a indústria e o comércio são os que mais se aproveitam do grande número ploretariado e do grande exército de mão de obra barata de reserva, podemos perceber a sua grande preocupação com a busca incessante do lucro através da geração de mais-valia.
O grande desenvolvimento industrial que ocorreu no século XIX, (Inglaterra, Estados Unidos, França) e posteriormente a com a formação do estado alemão e que reforçou a estrutura capitalista, levou ao século XX uma expansão desta industrialização por um espaço geográfico bem mais abrangente, e no Brasil não foi diferente. Junto desta expansão viria os grandes avanços tecnológicos aplicados na forma de produção.
O fenômeno que poderíamos chamar de terceira revolução industrial levou automaticamente a revolução dos meios de comunicação, através da criação do rádio e posteriormente da televisão e agora a internet. O aparecimento e a popularização destes aparelhos causariam um fenômeno muito poderoso. Eles se tornariam a maior influência sobre grande parte da população mundial. Inconscientemente a família e a escola, vão deixando de serem as principais formadoras, educadoras, aplicadoras de princípios e essa responsabilidade acaba sendo tomada pela mídia. Com o passar das décadas, a televisão assume a função de apontar o “certo e errado”, o “ético e antiético”, “moral e imoral”, ou seja, alterando uma série de conceitos que historicamente se encontravam enraizados. Dentro deste mundo novo que se forma. A propaganda também passa por um processo de modernização, ela também terá uma grande influência nos valores desta nova sociedade. A sociedade do extremo consumo.
Percebendo o imenso poder da propaganda, os investimentos cresceram absurdamente, fazendo com que grandes indústrias e comércios freqüentassem as casas por meio de TVs e rádios diariamente. Essas propagandas publicitárias foram se apresentando como ferramentas de alienação, disfarçados de simples anúncios publicitários reformulando a idéia de “felicidade”. Implantam novos padrões sociais para que o cidadão se sinta “feliz”. O cidadão deixa de ser um simples cidadão e se torna, antes de mais nada, um consumidor.
A indústria cosmética contribui com veemência para a afirmação desta recíproca, afirmando padrões de beleza instituídos por meio de alienação televisiva, revistas, jornais, rádios e outdoors.
Tendo como alvo a vaidade feminina, a indústria cosmética utiliza o marketing não apenas para expor seus produtos, mas para estipular novos padrões de estética, dos quais, o público feminino só alcança a satisfação plena através do consumo de seus produtos. Propaganda que muitas vezes dialogam inicialmente com o futuro consumidor como se ele fizesse parte de uma sociedade homogenia, cultural e economicamente, gerando um ciclo instintivo, do “querer ter” e “querer ser” para o consumo de seus produtos. A alienação afeta todas as classes, mas é o proletariado que sofrerá com as mudanças. Na busca de sua satisfação “pré-imposta”, ela vai trabalhar para que, com muito esforço conseguir ter acesso a estes produtos que a incluirão na esfera dos novos padrões colocados, levando-a assim a suposta felicidade. Felicidade com prazo de validade. Antes mesmo de usar o produto comprado com tanto esforço, a indústria cosmética já alterou estes padrões afirmando que aquela “felicidade” anterior já não serve mais. Ou seja, as metamorfoses dos padrões concebidos no universo capitalista possibilitam a eterna expectativa do lucro.
Logicamente que com o passar das décadas a indústria buscou adaptar-se a realidade. Na busca de alcançar o maior número de consumidores possível, adotou a política de produção e divulgação de produtos para classe A, B, C, D, mas a classe A, acaba a sendo a referência do povo que “quer ser” e “quer ter”.
A indústria farmacêutica, também se privilegia dessas verdadeiras “janelas para o mundo” que há dentro de nossas casas e ao nosso redor no dia-dia.
São as grandes agências de saúde, que em nome da ciência, estipulam outro tipo de padrão. O padrão de saúde. São elas que através do resultado de suas pesquisas científicas, apontam quais são as médias de peso e altura que uma sociedade saudável precisa estar enquadrada.
A indústria farmacêutica produz as drogas que levará os “inconformados” em estar fora dos padrões de saúde a consumi-los. A padronização da qualificação “saudável” se apresenta em modelos físicos norte americanos e europeus, implantando em países da América Latina, Ásia e África, onde muitas vezes o indivíduo está muito longe da realidade cultural na qual está sendo colocada como referencial, seja por circunstância sócio-econômica ou até mesmo natural.
No mundo em que tudo acontece em função do capital, este ramo da indústria certamente pode ser colocada como uma das mais cruéis. Uma indústria que é responsável de produzir curas, restringem por conta de preços altíssimos o que poderia salvar milhões de vidas.
Qualquer tipo de epidemia eleva abundantemente o preço dos remédios relacionados ao controle ou cura daquele vírus que se espalha. Um exemplo claro a ser citado é a epidemia de gripe suína. O grupo suíço Roche, detentor da patente do Tamiflu, único remédio que combate o vírus aumentou abundantemente o preço do medicamento após a explosão da epidemia no começo de 2009. A própria divulgação da epidemia pelos meios de comunicação acarreta no aumento da procura do medicamento, ou seja, a área da comunicação que deveria informar, indiretamente acaba fazendo a propaganda do produto.
Diante dos fatos apontados, o que podemos perceber dentro dessas duas áreas da indústria, assim como todas as outras, utilizam os meios de comunicação para levar os seus produtos para o maior número de consumidores possível, mas junto disso produzem um fenômeno de alteração na sociedade, e que apesar de prometerem uma suposta “felicidade”, ocasiona na verdade um grande ciclo de infelicidade contínua, ou seja, uma felicidade com prazo de validade.


Marcelo Albino de Oliveira Junqueira Leite.